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Psicologia

Previsivelmente irracional

por Dan Ariely

14 min de leitura2165 palavras

Sobre o microbook:

Em Previsivelmente irracional, Dan Ariely investiga por que tantas decisões que parecem racionais são moldadas por comparações, expectativas e circunstâncias ao redor. A partir de experimentos e situações cotidianas, o livro questiona se avaliamos as opções por seu valor próprio ou pelo contexto, e como esses padrões influenciam nossas escolhas.

O que você aprenderá:

Você verá como chamarizes e âncoras alteram a percepção de preço, por que a palavra “grátis” pode pesar mais do que uma pequena diferença monetária e como normas sociais mudam quando uma relação vira transação. O microbook também apresenta exemplos de procrastinação, apego à posse e escolhas influenciadas por emoções.

Sobre o autor:

Dan Ariely é pesquisador de economia comportamental e professor da Universidade Duke, além de membro fundador do Center for Advanced Hindsight. Em Previsivelmente irracional, apresenta pesquisas sobre decisões e padrões de comportamento em linguagem não acadêmica. Sua biografia relata que a própria recuperação de ferimentos sofridos em uma explosão despertou seu interesse pela irracionalidade.

Neste microbook, percorremos as ideias centrais de Previsivelmente irracional, de Dan Ariely.

Depois de um acidente que deixou cerca de 70% do corpo de Dan Ariely coberto por queimaduras graves, ele passou anos entre tratamentos e curativos dolorosos. Na ala de queimados, as enfermeiras removiam as bandagens rapidamente, supondo que um sofrimento intenso, mas breve, seria menos penoso; as experiências de Ariely sugeriram que uma abordagem mais lenta e gradual poderia reduzir a dor total. A diferença entre a intuição de profissionais experientes e o que a investigação revelou levou o pesquisador a perguntar por que pessoas bem-intencionadas repetem erros sem percebê-los. Em Previsivelmente irracional, sua resposta é que nossas falhas não são aleatórias: seguem padrões que podem ser estudados e, até certo ponto, contornados.

O contexto relativo decide o que parece valioso

Para Ariely, muitas vezes não avaliamos as opções por um medidor interno de valor, mas pelo contraste com aquilo que está ao lado. Na oferta da revista The Economist, por exemplo, a assinatura impressa e digital custava o mesmo que a assinatura impressa sozinha, e essa opção aparentemente inferior fazia o pacote combinado parecer irresistível. Em um teste com estudantes de MBA, 84 escolheram a combinação quando a opção impressa isolada estava presente; sem ela, 68 preferiram apenas o acesso digital.

O chamariz não precisa ser atraente por si só, basta tornar outra alternativa mais fácil de comparar e aparentemente superior. Uma casa colonial que precisa de um telhado novo pode fazer a versão colonial em bom estado parecer uma escolha óbvia diante de uma casa contemporânea, ainda que a comparação entre estilos não seja simples. Em um experimento com fotografias de estudantes, uma imagem ligeiramente alterada levou participantes a preferirem a pessoa semelhante sem a distorção, em vez de outra opção intacta, em cerca de 75% das escolhas. Assim, algo que ninguém escolheria ainda pode mudar a forma como avaliamos as demais alternativas.

Essa lógica não se restringe às compras: comparar salários pode fazer alguém que ganha muito se sentir mal pago ao descobrir que um colega recebe um pouco mais. Ela também ajuda a explicar por que algumas pessoas percorrem quinze minutos para economizar sete dólares em uma caneta, mas não para poupar os mesmos sete dólares em um terno caro. O valor da economia é idêntico, mas a comparação local altera a sensação de vantagem. Uma saída sugerida por Ariely é ampliar o quadro e avaliar o dinheiro pelo que mais poderia fazer, em vez de se prender apenas à comparação imediata.

Âncoras e expectativas constroem o valor

A história das pérolas negras do Taiti mostra como uma âncora pode criar valor percebido. Quando Salvador Assael encontrou um produto sem mercado definido, levou as pérolas à vitrine do joalheiro Harry Winston e as promoveu ao lado de pedras preciosas. Essa associação ajudou a transformar as pérolas em artigos de luxo. Para Ariely, isso questiona a ideia de que os preços e a disposição dos consumidores para pagar sejam sempre determinados por preferências independentes da oferta.

Em um experimento do MIT, os dois últimos dígitos do número da Previdência Social dos participantes foram transformados em preços e influenciaram quanto eles estavam dispostos a pagar por vinhos, chocolates e equipamentos. Quem tinha dígitos mais altos ofereceu lances maiores, embora aqueles números não tivessem relação com o valor dos produtos. Depois, os participantes mantiveram comparações coerentes entre itens semelhantes, fenômeno que Ariely chama de coerência arbitrária: o ponto de partida é casual, mas organiza julgamentos posteriores. Segundo o autor, um preço ganha força quando consideramos de fato a compra e pode virar hábito, como na primeira visita à Starbucks, que serve de referência para as seguintes.

As expectativas também podem alterar a experiência, e não apenas descrevê-la. Em experimentos com cerveja, participantes que provaram uma mistura com vinagre balsâmico sem saber do ingrediente muitas vezes preferiram a bebida; quando eram avisados antes, tendiam a rejeitá-la. Se a revelação vinha depois da degustação, suas avaliações se aproximavam das de quem nunca recebera a informação. Em um teste com o analgésico fictício Veladone-Rx, mais participantes relataram alívio quando acreditavam estar recebendo o remédio de preço alto, embora a cápsula fosse apenas vitamina C, um resultado que também pede cautela ao avaliar procedimentos médicos cuja eficácia ainda não foi bem testada.

O grátis e as normas que governam as relações

Em um experimento, a trufa Lindt custava 15 centavos e o Hershey’s Kiss, um centavo; quando ambos tiveram o preço reduzido em um centavo, deixando o Kiss gratuito, muitos participantes trocaram a trufa pelo chocolate comum. A diferença entre os preços quase não mudou, mas o zero provocou uma reação emocional desproporcional. Ariely observa que o grátis não é apenas mais um desconto: ele reduz a sensação imediata de perda e pode enfraquecer a análise de custo-benefício.

O grátis também pode estimular a consideração pelos outros, dependendo da situação. No estudo das balas Starburst, três vezes mais estudantes pararam no estande quando as balas eram gratuitas, mas cada um pegou em média 1,1, contra 3,5 quando elas custavam um centavo. Sem uma troca monetária, muitos passaram a se limitar e a levar em conta os demais; diante do preço baixo, prevaleceu mais a vontade de maximizar o próprio consumo. Assim, o efeito do zero pode tanto seduzir o consumidor quanto reforçar regras de compartilhamento.

É aí que Ariely distingue as normas sociais das normas de mercado. Em uma tarefa repetitiva, quem recebia 50 centavos se esforçava menos do que quem não recebia nada, enquanto quem recebia cinco dólares se esforçava mais; mencionar o preço de um presente também podia transformá-lo em uma transação. Em uma creche israelense, uma multa por atrasos substituiu a culpa e a obrigação social por uma tarifa, e os atrasos continuaram mesmo depois que a multa foi retirada. Presentes, gratidão e propósito podem motivar de forma diferente do dinheiro, mas tratar uma relação social como negócio pode prejudicar a confiança.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, vimos como comparações, chamarizes e âncoras mudam o valor que atribuímos às opções, e como o preço zero pode tanto nos seduzir quanto alterar a maneira como nos relacionamos com os outros. Também apareceu uma distinção decisiva entre trocas sociais, baseadas em reciprocidade difusa, e trocas de mercado, que pedem equivalência imediata. Na segunda metade, o foco passa para estados emocionais, procrastinação, apego e portas que relutamos em fechar. Por fim, veremos como confiança e honestidade revelam que erros previsíveis podem ser enfrentados redesenhando as escolhas, em vez de confiar apenas numa racionalidade ideal.

Emoções e procrastinação enfraquecem o autocontrole

Ariely mostra que é difícil prever como agiremos quando nossas emoções se intensificam. Em um experimento com estudantes homens de Berkeley, as respostas sobre preferências sexuais, limites morais e uso de preservativos mudaram bastante quando os participantes estavam excitados, em comparação com as respostas dadas em estado calmo. Como o estudo mediu previsões e respostas, não comportamentos reais, sua principal contribuição é mostrar o quanto podemos subestimar a influência de um estado emocional sobre nosso julgamento. Por isso, decisões de saúde e segurança não deveriam depender somente de promessas feitas em momentos tranquilos.

Uma proteção mais confiável é preparar-se antes de a tentação aparecer. Ariely recomenda, por exemplo, que as pessoas não dependam apenas da decisão de levar preservativos no calor do momento e que evitem situações em que a excitação possa comprometer seu julgamento. Ele também descreve jovens dirigindo com amigos, música alta e distrações, quando a avaliação racional dos riscos pode desaparecer. Em vez de confiar numa escolha segura feita durante a agitação, sugere combinar regras e mecanismos prévios que tornem essa escolha mais fácil.

A procrastinação é outro conflito entre a satisfação imediata e os objetivos de longo prazo. Em um curso no MIT, os alunos sem prazos intermediários tiveram as piores notas, enquanto os que receberam prazos impostos se saíram melhor; aqueles que escolheram seus próprios compromissos ficaram entre os dois grupos. O resultado sugere que pré-compromissos ajudam, embora uma estrutura externa possa ser mais eficaz do que os limites que estabelecemos para nós mesmos. Ariely também relata que associou filmes à aplicação dolorosa de interferon, acrescentando uma recompensa imediata a um tratamento cujos benefícios só apareceriam mais tarde.

A posse e as portas abertas prendem nossas escolhas

Na Universidade Duke, uma loteria de ingressos para uma partida importante separou estudantes que haviam passado tempo acampando. Os que ganharam pediam, em média, cerca de 2.400 dólares para vender o ingresso, enquanto os que não ganharam ofereciam aproximadamente 175 dólares para comprá-lo. Todos queriam assistir ao jogo antes do sorteio, mas os vencedores passaram a associar o ingresso às lembranças e à importância da ocasião. Para Ariely, a posse amplia o valor subjetivo e nos faz focalizar a perda de abrir mão do que já consideramos nosso.

Esse efeito nasce de algumas tendências que se reforçam: apegar-se ao que é nosso, concentrar-se no que perderemos e supor que o outro enxerga a transação da mesma maneira. O esforço investido também pode aumentar a sensação de propriedade, como no chamado efeito Ikea, em que montamos um móvel e passamos a valorizá-lo mais. Até um teste gratuito ou um leilão no qual nosso lance está vencendo pode criar uma sensação de posse antes da aquisição efetiva. Por isso, a possibilidade formal de devolver um produto ou mudar de opção nem sempre desfaz o vínculo que já se formou.

Ariely e seu colega Jiwoong Shin também estudaram a dificuldade de manter portas abertas. Em um jogo com três opções, participantes corriam de uma sala a outra para impedir que as portas desaparecessem, em vez de se concentrarem na alternativa mais vantajosa. Esse vaivém, além de estressante, reduziu os ganhos em cerca de 15% em comparação com a condição sem portas que se fechavam. Mesmo quando uma porta podia ser reaberta com um clique, muitos não toleravam vê-la desaparecer. Na vida, o preço de preservar todas as possibilidades pode ser perder tempo e foco nas prioridades que realmente importam.

Confiança, honestidade e o desenho das escolhas

Em uma pesquisa sobre confiança, Ariely e seus colegas ofereceram dinheiro em um espaço público. Mesmo quando havia 50 dólares disponíveis, apenas 19% dos passantes aceitaram a oferta. Muitos suspeitavam de uma armadilha, uma reação que ajuda a entender como publicidade enganosa e experiências ruins contaminam a avaliação de uma marca. Quando a confiança se perde, o dano ultrapassa a empresa que enganou, porque consumidores passam a desconfiar também de ofertas legítimas e transações comuns. A resposta da Johnson & Johnson ao caso do Tylenol, com o recolhimento rápido dos produtos e uma comunicação transparente, ilustra uma forma possível, embora custosa, de reparar essa relação.

Experimentos sobre desonestidade revelam que pessoas que se consideram honestas podem trapacear um pouco quando têm oportunidade, sem necessariamente chegar à fraude máxima. Recordar os Dez Mandamentos ou assinar uma declaração de compromisso moral reduziu a trapaça nos estudos, mesmo quando os participantes não conseguiam lembrar todas as regras. Em outro teste, fichas que podiam ser trocadas por dinheiro levaram a mais respostas infladas do que o pagamento em dinheiro direto. A distância simbólica do dinheiro facilitava a justificativa do ato, mostrando como pequenas desonestidades podem se tornar mais fáceis quando nos afastamos de padrões morais claros.

Até um pedido de bebida mostra a força do contexto social. Em um bar da Carolina do Norte, quem pedia em voz alta tendia a buscar variedade e, em média, apreciava menos a escolha, embora a primeira pessoa ainda não tivesse sido influenciada pelos demais. Em Hong Kong, pedidos feitos em público favoreceram a conformidade, mostrando que a cultura também altera a resposta à pressão do grupo. Para Ariely, esses resultados ilustram que nossos erros são previsíveis e que o ambiente pode ser organizado para ajudar a evitá-los. No plano Poupe Mais Amanhã, por exemplo, trabalhadores se comprometiam a destinar parte de futuros aumentos salariais à aposentadoria, elevando em um teste a contribuição média de cerca de 3,5% para 13,5%.

Notas Finais

Previsivelmente irracional não afirma que somos incapazes de escolher bem ou que a razão seja inútil. Mostra que nossas decisões são moldadas por contexto, memória, emoção, expectativas, relações e pela forma como as opções são apresentadas. Ao reconhecer esses padrões, podemos nos proteger com compromissos prévios e criar regras, produtos e políticas mais compatíveis com a maneira como realmente agimos. A promessa da economia comportamental é usar esse conhecimento para nos aproximar do que de fato valorizamos e encontrar os “almoços grátis” do autor, melhorias com benefício líquido, ainda que não sejam literalmente sem custo.

Dica do Minutobooks

Para aprofundar essa reflexão, a recomendação é Rápido e devagar: duas formas de pensar, de Daniel Kahneman. Assim como Ariely, Kahneman investiga vieses e limites do julgamento, mostrando por que a intuição e a deliberação nem sempre conduzem a escolhas racionais. Enquanto Previsivelmente irracional enfatiza a influência do contexto, dos incentivos e do ambiente, Kahneman oferece uma visão mais ampla dos processos mentais que moldam nossas decisões.

Fim da resenha

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