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Literatura Infantil

O homem que calculava

por Malba Tahan

13 min de leitura1877 palavras

Sobre o microbook

Em O homem que calculava, Malba Tahan acompanha Beremiz Samir, antigo pastor cuja atenção aos rebanhos se transforma em talento para resolver enigmas durante uma viagem a Bagdá. Entre divisões de heranças, cálculos e disputas, a narrativa pergunta como os números ajudam a compreender situações concretas e o que distingue uma solução engenhosa de uma solução justa.

O que você aprenderá

Você verá como a prática desenvolve a capacidade de estimar, por que é necessário conferir as premissas antes de repartir ou comparar quantidades e como raciocínios aparentemente convincentes podem esconder erros. Os episódios também aproximam aritmética, geometria e padrões naturais, além de mostrar o papel da generosidade, da prudência e da justiça no uso do conhecimento.

Sobre o autor

Malba Tahan era o pseudônimo do brasileiro Júlio César de Mello e Souza (1895–1974), professor de Matemática e escritor. A Editora Record registra que ele lecionou em diferentes instituições, entre elas o Colégio Pedro II e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua experiência como educador ajuda a situar o diálogo entre narrativa e raciocínio matemático presente neste livro.

Nossa leitura começa com O homem que calculava, de Malba Tahan, e suas ideias centrais.

Às margens de uma estrada rumo a Bagdá, o narrador encontra um viajante que interrompe o repouso para pronunciar números enormes, como se o mundo inteiro pudesse ser lido em quantidades. Esse viajante é Beremiz Samir, antigo pastor que aprendeu a contar rebanhos, aves, insetos e cachos de tâmaras com atenção e prática. A partir dessa habilidade, Malba Tahan transforma uma jornada por mercados, palácios e escolas numa narrativa que celebra a matemática, os enigmas e a inteligência usada para compreender a vida.

O talento matemático nasce da atenção e do exercício

Beremiz conta que, ainda jovem, era pastor e temia ser castigado se perdesse uma ovelha, por isso conferia o rebanho várias vezes ao dia. Com o treino, passou a reconhecer quantidades num relance e ampliou o exercício às aves, às formigas e às abelhas. Depois, o mesmo cuidado foi aplicado à contagem das tâmaras, quando seu patrão lhe confiou a venda dos frutos.

Essa origem torna seu talento menos misterioso do que parece: a habilidade resulta de observação repetida, memória e prática. Ao encontrar uma árvore, por exemplo, Beremiz estima o número de folhas multiplicando a quantidade de ramos pela média de folhas por ramo. A estimativa também depende de premissas, pois o resultado só vale na medida em que essa média representa a árvore observada.

Para o narrador, aquela destreza parece uma porta para a riqueza e os cargos públicos, mas Beremiz primeiro estranha a ideia de que contar árvores e abelhas possa interessar a alguém. Sua resposta revela que os números não são, para ele, mero truque de salão, mas uma forma de prestar atenção ao que existe e encontrar ordem em tarefas concretas. Assim, a matemática começa no cotidiano e se aperfeiçoa quando curiosidade e disciplina caminham juntas.

Resolver um problema exige examinar suas premissas

Os 35 camelos herdados por três irmãos parecem impossíveis de repartir nas frações de metade, um terço e um nono. Beremiz acrescenta o camelo do narrador, trabalha com 36 e entrega 18, 12 e 4, de modo que os irmãos recebem números inteiros e ainda sobram dois animais, um para ele e outro para o narrador. O apêndice esclarece o artifício: as frações do testamento somam apenas dezessete dezoitavos, portanto não cobrem toda a herança, e a divisão engenhosa aproveita essa sobra, em vez de realizar uma partilha literal das parcelas originais.

No caso dos oito pães, a contagem dos pedaços altera a impressão inicial de que as moedas deveriam seguir simplesmente a quantidade de pães fornecida por cada viajante. Como cada pão é dividido em três partes e os três comem oito pedaços cada um, Beremiz calcula que contribuiu com sete pedaços para o xeque, enquanto o narrador contribuiu com um. Ainda assim, depois de defender essa divisão como matematicamente correta, ele reparte as oito moedas em partes iguais, separando a exatidão do cálculo da generosidade entre amigos.

Esse método também aparece no desacordo sobre a hospedagem do joalheiro, que vende suas joias por 140 dinares apesar de ter combinado taxas para vendas de 100 e 200. Beremiz rejeita as proporções simples e chega a 26 dinares por interpolação, enquanto o apêndice observa que a relação não é proporcional e que a solução rigorosa pertence à teoria das interpolações. No enigma do dinar desaparecido, ele mostra que os 27 dinares pagos já se repartem entre os 25 do hospedeiro e os 2 do escravo, e que a conta enganosa soma a gorjeta uma segunda vez.

A matemática revela ordem na natureza e valor na abstração

Para Beremiz, a geometria não mora apenas nos livros: ele a enxerga nas folhas, no arco-íris, nas curvas de um repuxo e nos alvéolos hexagonais das abelhas. Ao observar uma corda suspensa pelas extremidades durante uma brincadeira infantil, pergunta-se sobre a curva que ela forma, identificada no apêndice como catenária, e recorda a tradição pitagórica que associa o círculo à perfeição. A natureza se torna, assim, um convite à investigação, não apenas uma paisagem a ser contemplada.

Na primeira aula de Telassim, ele explica que medir é comparar grandezas e apresenta a aritmética como estudo dos números, a álgebra como estudo das relações e a geometria como estudo das formas. Acrescenta a mecânica, ligada aos movimentos e às forças, e a astronomia, que emprega esses recursos para examinar o céu. As áreas não aparecem como compartimentos isolados, porque, no argumento do livro, elas se apoiam e se completam.

Os números 220 e 284, chamados amigos porque os divisores próprios de cada um somam o outro, mostram como Beremiz encontra relações surpreendentes e até poéticas na aritmética. Ao defender a pesquisa abstrata diante de quem ridiculariza a contagem de palavras ou franjas, ele argumenta que descobertas aparentemente inúteis podem servir à humanidade séculos depois, embora ninguém consiga antecipar com segurança suas aplicações. Para ele, a matemática também educa o raciocínio e eleva a inteligência, por isso seu valor não se mede apenas pelo lucro ou pela solução de necessidades imediatas.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, a jornada mostrou Beremiz transformando observação em habilidade, desmontando enigmas ao conferir suas premissas e reconhecendo padrões no cotidiano, na natureza e nas ideias abstratas. As soluções não dependem apenas de rapidez, mas de entender o que cada problema realmente pede e distinguir aparência de estrutura. Na segunda metade, veremos como esse saber é ensinado e transmitido entre culturas, e como a inteligência ganha valor quando se une à justiça, à generosidade e à reflexão sobre a vida.

Ensinar matemática é abrir caminhos e compartilhar heranças

A tarefa de Beremiz como professor de Telassim desmente frontalmente a crença de que mulheres seriam incapazes de aprender matemática. Embora as aulas ocorram com os dois separados por um reposteiro, ela progride até dominar operações, frações e trechos de Euclides, enquanto o pai tenta afastar uma previsão astrológica de desgraça. Beremiz cita Hipátia como exemplo de mulher que estudou e ensinou matemática, e defende que a inteligência feminina pode acolher a ciência quando recebe orientação adequada.

Nas lições, a matemática deixa de ser uma coleção de truques e ganha uma arquitetura compreensível, do número e da medida até às operações e às figuras. Beremiz explica os sistemas de numeração, o valor posicional, a adoção da base dez e a importância do zero para representar e calcular. Ao apresentar essas ideias, o romance faz o leitor acompanhar conceitos matemáticos junto com a história de como foram construídos.

Essa dimensão coletiva aparece na lenda do rei iemenita Asad-Abu-Carib, que manda criar centros de estudo de matemática e vê o país prosperar, antes que a negligência de um sucessor desfaça esse avanço. Em suas aulas e conversas, Beremiz percorre contribuições de estudiosos indianos, como Apastamba e Bháskara, lembra a obra Lilaváti e fala do papel dos estudiosos árabes na circulação da ciência. O teorema de Pitágoras e os problemas apresentados em versos mostram como o romance combina rigor, história e imaginação, e sugerem que o conhecimento cresce quando atravessa povos e gerações.

O saber só se completa quando serve à justiça e à caridade

Seu caráter aparece quando, ao receber o convite para ser secretário do vizir, Beremiz pede que também se encontre um posto para o companheiro de viagem. Depois de demonstrar que, pelos pedaços de pão, lhe caberiam sete das oito moedas e ao amigo apenas uma, ele escolhe dividir a quantia igualmente. E, nas consultas que atende sem cobrar ou cujos honorários distribui aos pobres, o cálculo torna-se serviço, não instrumento de enriquecimento.

Quando o cruel Tara-Tir o desafia a contar os pássaros, Beremiz pede que soltem três aves e depois anuncia que restam 496, número perfeito por equivaler à soma de seus divisores próprios. A demonstração ajuda a transformar a disputa em gesto de caridade, pois ele associa a libertação de cada ave ao bem do animal, da consciência de quem a solta e de Deus, e o xeque ordena abrir o viveiro. Mais tarde, ao interpretar a redução da prisão perpétua, propõe a liberdade condicional, já que nenhuma alternância de períodos finitos garantiria matematicamente metade da vida desconhecida do condenado.

Beremiz aconselha o mercador Aziz a não julgar o sócio sob o efeito da cólera, porque a paixão colore os fatos como uma lente. Na fábula do leão, do tigre e do chacal, as divisões obedecem à força, e o bajulador que aprende a servir o poderoso acaba destruído por ele. Esses episódios lembram que a habilidade numérica, sozinha, não garante retidão: o conhecimento só é digno quando se alia à prudência e à justiça.

A vida pede rigor, imaginação e humildade além das fórmulas

Os desafios do torneio mostram que acertar alguns casos não basta para provar uma regra. Beremiz apresenta números cujas raízes parecem confirmar um método, mas demonstra que três exemplos verdadeiros não tornam verdadeira uma regra geral. Já os problemas dos cinco discos e das escravas veladas exigem deduzir consequências das respostas, não confiar em palpites, revelando a importância do rigor e dos limites de cada inferência.

Na lenda do xadrez, o rei Iadava oferece ao inventor Sessa um grão de trigo na primeira casa e dobra a quantidade em cada casa seguinte. O pedido parece modesto, mas nas 64 casas acumula 18 446 744 073 709 551 615 grãos, uma quantidade que o reino não poderia pagar. A história transforma uma progressão numérica em advertência sobre consequências exponenciais e também em reflexão sobre estratégia, sacrifício e o valor de cada peça.

Nas provas do califa, depois de responder aos sete sábios, Beremiz resolve o enigma das cinco escravas com três perguntas, usando até uma resposta em idioma que não compreende para deduzir quem diz a verdade e quem mente. Ao receber o direito de escolher uma recompensa, rejeita ouro, palácio e cargos e pede Telassim em casamento, embora nunca lhe tenha visto o rosto e conheça seu afeto por meio de um bilhete e de um tapete bordado. O narrador conta que Telassim já era cristã, que Beremiz adotou o Evangelho e que o casal deixou Bagdá antes da invasão mongol de 1258, que destruiu a cidade. A conclusão afirma que o melhor problema resolvido foi o da vida e do amor, mas também explicita a moldura religiosa cristã do narrador, uma convicção do romance, não uma demonstração matemática.

Notas Finais

Em O homem que calculava, os enigmas servem menos para exibir respostas brilhantes do que para revelar como atenção, lógica, imaginação e caráter se entrelaçam. Beremiz mostra que os números podem esclarecer acordos, expor erros e alimentar a ciência, mas a inteligência ganha grandeza quando vem acompanhada de justiça e caridade. Ao encerrar com amor, fé e a memória de Bagdá, o livro amplia sua celebração da matemática para uma reflexão sobre o que merece ser preservado na vida.

Dica do Minutobooks

Para continuar nessa combinação de curiosidade matemática e narrativa acessível, vale ler Matemática Divertida e Curiosa, de Malba Tahan. Assim como neste romance, o autor apresenta problemas, jogos e ideias matemáticas de forma leve, com espaço para o espanto e a descoberta. É uma boa escolha para quem gostou de perceber que a matemática também pode ser aventura, cultura e prazer de pensar.

Fim da resenha

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