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Esportes

Endure

por Alex Hutchinson

16 min de leitura2326 palavras

Sobre o microbook

Em Endure, Alex Hutchinson investiga uma questão central: o que permite continuar quando o corpo acumula sinais de cansaço e cada passo parece custar mais? Partindo de histórias de atletas e pesquisas, o livro examina a resistência como uma negociação entre corpo, cérebro e circunstâncias, sem reduzi-la à força de vontade ou a um único indicador físico.

O que você aprenderá

Você conhecerá o papel de medidas como VO₂máx, economia de corrida e limiar de lactato, além das hipóteses sobre esforço percebido e regulação cerebral do ritmo. O livro também distingue dor, fadiga e falha muscular e explora como calor, oxigênio, hidratação, combustível e treinamento alteram a capacidade de sustentar o esforço em diferentes situações.

Sobre o autor

Alex Hutchinson é jornalista científico e autor de Endure. Foi colunista de longa data da revista Outside, onde escreveu sobre ciência da resistência, e ganhou um National Magazine Award. Antes de trabalhar como jornalista, atuou como físico pós-doutoral e competiu como corredor de longa distância pela equipe nacional do Canadá.

As reflexões deste microbook têm como ponto de partida Endure, de Alex Hutchinson.

Em 6 de maio de 2017, no autódromo de Monza, Eliud Kipchoge correu uma maratona numa tentativa cuidadosamente planejada de superar a marca de duas horas, acompanhado por corredores que se revezavam para ditar o ritmo e bloquear o vento. O cronômetro registrava cada volta, mas não explicava sozinho como um atleta continua avançando quando o corpo acumula sinais de cansaço e a mente avalia o custo de cada passo. Em Endure, o jornalista e corredor Alex Hutchinson transforma essa pergunta em uma investigação que passa por laboratórios, provas extremas e suas próprias experiências. A resposta é menos simples do que atribuir o desempenho à força de vontade ou à capacidade física, pois a resistência emerge da negociação entre corpo, cérebro e circunstância.

A resistência não cabe em uma única medida

Hutchinson parte de uma definição simples, emprestada do cientista Samuele Marcora: resistência é lutar para continuar diante de um desejo crescente de parar. A expressão serve tanto para uma prova física quanto para suportar uma tarefa prolongada, porque o desgaste envolve sensações, decisões e o tempo que ainda resta. Mesmo um velocista desacelera depois de atingir a velocidade máxima, e um jogador como LeBron James pode sentir o acúmulo de minutos, semanas e meses de fadiga. Assim, a resistência não é uma qualidade isolada nem um teste exclusivo de atletas de longa distância.

Por boa parte do século XX, pesquisadores trataram o corpo como uma máquina que pararia quando faltasse oxigênio, combustível ou força muscular. A busca por medidas objetivas levou ao VO₂máx, à economia de corrida e ao limiar de lactato, parâmetros que descrevem, respectivamente, a capacidade de usar oxigênio, o custo do movimento e a intensidade que pode ser sustentada. Esses instrumentos ajudaram a prever resultados e a compreender a fisiologia, embora a antiga ideia de que o lactato seria simplesmente um veneno muscular tenha sido revista. Ainda assim, nenhuma medida isolada explica por que alguém reduz o ritmo antes de atingir uma falha física mensurável.

Em 1991, Michael Joyner combinou VO₂máx, economia de corrida e limiar de lactato para estimar que um maratonista com valores excepcionais, mas humanamente possíveis, poderia correr em 1h57min58s. O número não era uma previsão de quando isso aconteceria, mas um desafio, porque o abismo entre o modelo e os recordes reais sugeria que faltavam fatores à explicação. A travessia solo da Antártida de Henry Worsley foi interrompida depois de ele ficar exausto e desidratado, e ele morreu no hospital após ser diagnosticado com peritonite bacteriana. Sua história mostra por que persistência não garante segurança e por que os limites fisiológicos precisam ser entendidos dentro de cada contexto.

O cérebro distribui o esforço antes da falha

Uma das hipóteses centrais do livro é o “governador central”, associado ao fisiologista Tim Noakes: o cérebro ajustaria antecipadamente o recrutamento muscular para proteger o organismo, em vez de esperar uma falha. Em estudos com ciclistas no calor, a ativação muscular já diminuía nos primeiros minutos, embora os participantes dissessem estar tentando com a mesma intensidade. O cérebro funcionaria menos como um interruptor de emergência e mais como um regulador que reduz gradualmente a potência. A hipótese é influente, mas controversa, e a ciência ainda discute como esse controle acontece.

Samuele Marcora propõe um modelo próximo, mas não idêntico: a resistência dependeria sobretudo do esforço percebido, a sensação de que continuar exige cada vez mais. Em um estudo, voluntários que passaram noventa minutos numa tarefa mental antes de pedalar desistiram cerca de 15,1% mais cedo, apesar de não apresentarem diferenças relevantes em frequência cardíaca, lactato ou consumo de oxigênio. Em outro experimento, recompensas maiores fizeram participantes sustentar por mais tempo uma posição muscular difícil. Juntos, esses resultados sugerem que a fadiga sentida e a capacidade física disponível nem sempre coincidem.

Um sinal recorrente é o sprint final: muitos recordistas de provas longas aceleram ao enxergar a chegada, algo que sugere uma reserva regulada pelo cérebro, embora não encerre o debate. Em Sherbrooke, Hutchinson acreditou que estava correndo mais rápido do que realmente corria, após receber parciais possivelmente atrasadas, e, livre do plano rígido, terminou os 1.500 metros em 3min52,7s. A experiência de Diane Van Deren, cuja cirurgia cerebral alterou sua memória, orientação e percepção do tempo, mostra de outro modo como características do cérebro podem mudar a forma de enfrentar uma longa prova. Nada disso prova que tudo esteja na mente, mas evidencia que percepção e estratégia participam do desempenho.

Dor, esforço e fadiga muscular não são a mesma coisa

Jens Voigt, famoso pelo lema “Cale-se, pernas”, fez do recorde da hora no ciclismo um teste explícito de sofrimento: pedalar por sessenta minutos no limite e suportar a dor que se acumula. As pesquisas relatadas por Hutchinson indicam que atletas não sentem necessariamente menos dor que outras pessoas, mas tendem a tolerá-la por mais tempo. Em um estudo com nadadores, o limiar inicial de dor era semelhante entre atletas e não atletas, enquanto a tolerância diferia bastante. Outro experimento encontrou aumento de tolerância após treinos intervalados intensos, mas o autor ressalta que essa relação ainda precisa de confirmação mais ampla.

A dor não é sinônimo de esforço nem uma medida direta do dano. Um estudo encontrou um ganho modesto, de cerca de 2%, quando ciclistas tomaram acetaminofeno, enquanto outro mostrou que bloquear a dor com fentanil levou ciclistas a começar rápido demais, sem melhorar o tempo e terminando incapazes de andar. A dor pode funcionar como um aviso útil, e sua importância muda com o contexto, a motivação e a situação de competição. Voigt terminou seu recorde em 2014 sofrendo intensamente, mas essa experiência não prova que o sofrimento, por si só, produza excelência.

Testes de estimulação mostram que, em movimentos isolados, pessoas saudáveis já recrutam quase toda a força voluntária disponível, o que enfraquece a ideia de uma reserva muscular enorme e universal. Em esforços breves, como os 800 metros, os músculos podem chegar a um ponto em que já não obedecem, mesmo quando o cérebro continua aumentando o comando. Em ultramaratonas, parte importante da perda de força parece vir da redução do recrutamento pelo sistema nervoso, influenciada pelos sinais dos próprios músculos, enquanto ainda resta capacidade física. Relatos de pessoas que levantam carros, como Tom Boyle, são difíceis de verificar e podem envolver alavanca, suspensão do veículo e o levantamento de apenas parte da carga, não uma força literalmente sobre-humana.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, vimos que nenhum indicador sozinho define a resistência, que o cérebro participa do ritmo e que dor, esforço e incapacidade física precisam ser distinguidos. Isso não transforma os limites em ilusões: músculos e sistemas fisiológicos podem falhar, mas seus avisos e respostas dependem do contexto. Agora, Hutchinson examina os desafios do oxigênio, do calor, da sede e do combustível, antes de perguntar como treino, crença e tecnologia podem ampliar, com cautela, a margem de desempenho.

Oxigênio e calor impõem limites variáveis

William Trubridge desceu a 102 metros em apneia e permaneceu submerso por pouco mais de quatro minutos, demonstrando que a urgência de respirar não equivale imediatamente à falta fatal de oxigênio. Ao mergulhar o rosto, o reflexo mamífero desacelera o coração e redireciona sangue para órgãos essenciais, enquanto o aumento de dióxido de carbono intensifica a vontade de respirar. Em altitudes extremas, o desafio é outro: o corpo precisa se adaptar à menor disponibilidade de oxigênio, como fizeram Reinhold Messner e Peter Habeler ao escalar o Everest sem oxigênio suplementar em 1978. Esses feitos ampliam a compreensão do possível, mas também deixam claro que ignorar os sinais de alerta pode ser perigoso.

Em atividades menos extremas, o oxigênio também importa, embora nem sempre como uma falta de combustível diretamente nos músculos. O VO₂máx ajuda a prever diferenças entre grupos, mas não determina sozinho quem vence nem quanto alguém pode melhorar. Estudos citados pelo autor sugerem que a queda de oxigênio no cérebro e a resposta antecipatória do sistema nervoso podem contribuir para a redução do esforço, sobretudo em altitude. O chamado “paradoxo do lactato”, níveis menores de lactato em grandes altitudes apesar da escassez de oxigênio, reforça a possibilidade de que o cérebro altere o recrutamento muscular antes que os músculos atinjam uma falha extrema.

Com o calor, o corpo tenta dissipar o excedente por meio do fluxo de sangue na pele e do suor, e a aclimatação melhora essas respostas ao longo de dias. Em condições reais, porém, o ritmo costuma cair desde o início, antes de a temperatura central alcançar os valores críticos observados em laboratório, e a sensação de calor também pode ser modulada pelo resfriamento e pela expectativa. O caso do jogador Max Gilpin sugere a importância de fatores como equipamento pesado, possível doença e uso de Adderall, embora a contribuição específica de cada um não tenha sido conclusivamente estabelecida. Hutchinson distingue, assim, o ajuste protetor normal da performance do colapso raro e grave, que não pode ser reduzido a uma simples falta de água ou força de vontade.

Hidratação e combustível pedem contexto, não dogmas

Por décadas, atletas ouviram que deveriam beber o máximo possível e evitar perdas acima de 2% do peso corporal, orientação popularizada junto com bebidas esportivas como Gatorade. A morte de Cynthia Lucero na Maratona de Boston, em 2002, após desenvolver hiponatremia associada ao excesso de água, ajudou a mudar as recomendações para beber segundo a sede. Em estudos de maratona, os corredores mais rápidos muitas vezes terminam com perdas de peso maiores, o que põe em dúvida a regra dos 2%, mas não prova que desidratar-se seja benéfico. Hutchinson explica que sede e desidratação não são sinônimos: a sede acompanha principalmente a concentração do plasma, e o peso perdido também pode incluir combustível consumido e água liberada pelo metabolismo.

Isso não torna os líquidos dispensáveis: sentir sede pode elevar o esforço percebido, e começar a prova bem hidratado continua importante. Além disso, atletas nem sempre conseguem beber tudo o que desejam durante uma corrida, e a capacidade de absorção do estômago é limitada. Em provas muito longas ou em condições extremas, Hutchinson reconhece que as evidências são insuficientes para recomendar uma única estratégia universal e que convém prudência. O argumento é evitar tanto o excesso de bebida, que pode causar hiponatremia, quanto a ideia de que cada perda de peso representa uma emergência.

Quanto ao combustível, os carboidratos sustentam melhor os esforços intensos, mas seus estoques são limitados; a gordura oferece uma reserva enorme, embora libere energia mais devagar e exija mais oxigênio. Dietas muito ricas em gordura aumentaram de forma impressionante a queima de gordura em estudos e podem interessar em algumas ultradistâncias, mas também reduziram a economia do exercício e a potência em sprints. Por isso, a saída não é escolher um combustível único, mas buscar flexibilidade metabólica, adaptando o uso de gordura e ingerindo carboidratos conforme a duração e a intensidade; em provas longas, combinações de glicose e frutose podem elevar a absorção até cerca de 90 gramas por hora, quando treinadas. Até a simples presença de carboidrato na boca pode reduzir o esforço percebido, um sinal de que o cérebro monitora recursos futuros, não apenas o combustível já consumido.

Treinar os limites exige corpo preparado e crenças testadas

Para Hutchinson, a base continua sendo o treino físico: acumular volume, inserir esforços mais rápidos e descansar, para que o mesmo ritmo custe menos ao coração e aos músculos. Esse processo também recalibra a percepção do esforço e pode aumentar a tolerância à dor, de modo que todo treinamento corporal tem uma dimensão mental. Marcora propõe complementar essa adaptação com tarefas cognitivas repetidas, e ensaios iniciais encontraram ganhos quando os participantes combinaram desafio mental e exercício. Como boa parte dessas pesquisas envolveu voluntários pouco treinados e a transferência para o esporte ainda precisa ser confirmada, a ideia é promissora, não uma fórmula comprovada.

Autoconversa motivadora e atenção plena são caminhos mais simples: ajudam a observar desconfortos sem tratá-los automaticamente como ordens para desistir. Hutchinson associa essa ideia aos efeitos da crença, que podem alterar esforço e comportamento, como nas expectativas de corredores quenianos que se lançam ao lado dos melhores e na decisão de Reid Coolsaet de correr com a elite em Toronto, apesar de um plano mais cauteloso. Coolsaet terminou em 2h10min55s e garantiu uma vaga olímpica. A confiança, nesse caso, não era magia, pois o corredor havia construído capacidade em treinos compartilhados, mas também não substituía a preparação.

A estimulação cerebral não invasiva, como a estimulação transcraniana por corrente contínua, parece alterar alguns testes de resistência, mas os estudos são pequenos e inconsistentes, e possíveis usos esportivos levantam questões éticas. A tentativa Breaking2 da Nike em Monza reuniu atletas de elite, condições controladas, corredores que se revezavam como marcadores de ritmo e calçados especiais; Kipchoge terminou em 2h00min25s, a apenas 25 segundos da marca, sem estabelecer um recorde oficial. O resultado não revela uma fórmula única, pois não é possível separar com precisão a contribuição de cada recurso, da preparação e da confiança. Ele mostra, porém, que a fronteira do possível pode recuar, sem deixar de lembrar, nas palavras de Kipchoge, que até o melhor atleta continua humano.

Notas Finais

Endure não oferece uma receita para vencer qualquer limite, mas uma forma mais precisa de pensar sobre eles. O esforço que sentimos resulta da interação entre sinais do corpo, expectativas e contexto, e pode ser moldado pelo treino sem apagar limites fisiológicos reais. Aprender a distinguir desconforto de perigo e a acreditar, com fundamento, em uma margem de progresso talvez seja a combinação mais fiel à mensagem do livro.

Dica do Minutobooks

Para continuar essa investigação, vale ler The Sports Gene, de David Epstein. O livro examina como genética, treinamento, ambiente e seleção moldam o desempenho extraordinário, dialogando com a recusa de Hutchinson em explicar a excelência por uma única variável. A leitura complementa Endure ao aprofundar a relação entre predisposições biológicas e capacidades desenvolvidas.

Fim da resenha

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