Pular para o conteúdo
Capa de O apanhador no campo de centeio
Ficção

O apanhador no campo de centeio

por J. D. Salinger

12 min de leitura1925 palavras

Sobre o microbook

O romance acompanha Holden Caulfield nos dias após ser expulso do internato Pencey, quando tenta atravessar Nova York entre encontros, desconfiança e solidão. Sob o sarcasmo do adolescente estão o luto pelo irmão Allie, o medo de crescer e o desejo de proteger a infância. Como encontrar afeto num mundo que ele julga falso sem fugir das mudanças?

O que você aprenderá

Neste microbook, você poderá examinar como a crítica de Holden à hipocrisia convive com suas próprias mentiras, e como o luto aparece em lembranças, culpa e irritação. As reflexões também acompanham sua dificuldade de aceitar ajuda, o sentido da fantasia do apanhador e o contraste entre tentar deter as mudanças e permitir que Phoebe faça suas próprias escolhas.

Sobre o autor

J. D. Salinger (Jerome David Salinger, 1919 a 2010) foi um escritor norte-americano, conhecido sobretudo por O apanhador no campo de centeio, publicado em 1951. Depois do romance, publicou alguns contos e livros, muitos ligados à família Glass, e passou a viver de forma reclusa.

As próximas reflexões se apoiam na obra O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger.

Do lugar onde se recupera de uma crise, Holden Caulfield decide que não contará toda a sua vida, mas os dias em que, expulso do internato Pencey pouco antes das férias de Natal, saiu às escondidas rumo a Nova York. Ele percorre a cidade procurando companhia e, ao mesmo tempo, desprezando as convenções que encontra nos colégios, nos bares e nas conversas dos adultos. Por trás do humor agressivo e das mentiras, porém, aparecem o luto pelo irmão Allie, o medo de crescer e uma necessidade profunda de afeto.

A rejeição da falsidade e o sentimento de não pertencer

No Pencey, Holden foi reprovado em quatro das cinco matérias e sabe que não voltará após o Natal. O colégio se anuncia como uma escola que transforma meninos em rapazes brilhantes, mas ele vê a propaganda como fachada e percebe que a reputação não torna seus colegas melhores. Sua crítica nasce de um incômodo real com a hipocrisia, embora suas conclusões apressadas também mostrem impaciência e dificuldade de confiar.

Na visita ao professor Spencer, a diferença entre eles se torna clara: Spencer tenta ajudá-lo, mas a conversa vira sermão sobre notas, futuro e responsabilidade, assuntos que Holden não consegue receber sem se fechar. O diretor Thurmer lhe dissera que a vida é um jogo, e Holden rejeita a metáfora porque, para ele, as regras favorecem quem já está do lado dos privilegiados. Enquanto finge concordar com Spencer, pensa nos patos do Central Park, um desvio que revela quanto evita enfrentar o que sente.

Ele também recorda o diretor Haas, do Elkton Hills, que era caloroso com pais ricos ou socialmente aceitos e frio com os demais. A imagem combina com o desprezo que sente por discursos de virtude, como o do benfeitor Ossenburger, cuja religiosidade soa performática aos olhos de Holden. No entanto, ele próprio inventa histórias e usa gentilezas automáticas, por isso a crítica à falsidade convive com a consciência, ainda incompleta, de suas próprias contradições.

O luto por Allie por trás do sarcasmo

Uma das feridas centrais de Holden é a morte de Allie, seu irmão mais novo, que morreu de leucemia quando os dois ainda eram crianças. Holden o descreve como inteligente, generoso e incapaz de se irritar, alguém que parecia melhor do que quase todos os adultos e jovens ao redor. A perda não é uma lembrança distante, ela continua presente em suas reações e no modo como se percebe sozinho.

Quando Stradlater pede uma redação descritiva, Holden escreve sobre a luva de beisebol de Allie, coberta de poemas que o irmão copiava para ter algo a ler durante os jogos. O objeto transforma o dever escolar em homenagem íntima, e Holden prefere contar sobre ele a cumprir a tarefa nos termos de Stradlater. A própria lembrança do irmão também o leva à noite em que, devastado pela morte, quebrou as janelas da garagem e feriu a mão.

Holden conserva uma culpa persistente por ter impedido Allie de acompanhá-lo numa excursão de bicicleta, embora saiba que o irmão não guardou ressentimento. Mais tarde, quando a crise se intensifica, ele fala com Allie como se pudesse pedir que não o deixe desaparecer, e a saudade se mistura ao medo de sua própria morte. A lembrança de James Castle, um colega que se recusou a retirar uma crítica e morreu ao se jogar de uma janela depois de ser intimidado, amplia esse quadro. Holden guarda a memória do rapaz e do suéter que lhe emprestara, sinal de que a violência contra alguém vulnerável o marca mesmo quando não havia intimidade entre eles.

A busca por companhia e o medo da intimidade

Holden quer conversar com alguém, mas na estação passa vinte minutos numa cabine sem conseguir escolher quem chamar. Pensa em Jane Gallagher, uma antiga vizinha por quem guarda lembranças ternas, e se atormenta imaginando-a com Stradlater, mas seu afeto vem misturado à desconfiança e à dificuldade de perguntar diretamente o que aconteceu. Com Sally Hayes, aceita um encontro e por um instante fantasia fugir com ela, mas a conversa se transforma em briga quando percebe que os dois imaginam futuros diferentes.

Alguns encontros, contudo, abrem espaço para uma proximidade menos calculada. No café da estação, conversa com duas freiras sobre livros e literatura, oferece dez dólares e se sente tocado pela simplicidade das duas, sobretudo da que ensina inglês. Embora tente parecer vivido, admite ser virgem e revela confusão sobre desejo e intimidade. Quando a prostituta Sunny chega ao quarto, Holden não quer prosseguir e tenta apenas conversar, mas a visita acaba em cobrança abusiva, ameaça e violência por parte de Maurice.

Quando procura o antigo colega Carl Luce, Holden tenta iniciar uma conversa séria, mas Luce perde a paciência e recomenda que ele procure um psicanalista. Mais tarde, o professor Antolini o acolhe em casa e lhe oferece uma reflexão sobre estudo, conhecimento e a diferença entre querer morrer nobremente por uma causa e viver humildemente por ela. Quando desperta e sente a mão do professor em sua cabeça, Holden se assusta e vai embora, embora depois admita não saber ao certo se interpretou o gesto corretamente. A ambiguidade é importante: ele anseia por ajuda, mas a proximidade também o deixa em alerta, e o conselho de Antolini continua ecoando depois da fuga.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, vimos um adolescente que denuncia a falsidade alheia, carrega o luto por Allie e busca companhia sem conseguir sustentar a intimidade. A seguir, a imagem do apanhador revelará seu desejo de proteger o que considera vulnerável, enquanto as lembranças do museu e a pergunta sobre os patos aprofundarão seu receio diante de mudanças que não controla. Acompanharemos, assim, o conflito entre preservar a infância e aceitar a passagem do tempo. Esse conflito conduz Holden a uma escolha pequena, mas decisiva, que interrompe a fuga sem oferecer uma solução simples.

O desejo de salvar a infância da queda

Holden encontra a imagem que dá título ao romance numa canção que ouve um menino cantar na rua, embora memorize a letra de forma equivocada. Quando Phoebe corrige que o verso do poema de Robert Burns fala em encontrar alguém, não agarrá-lo, ele explica que gostaria de ser o apanhador num campo de centeio, junto a um precipício. Na fantasia, milhares de crianças brincam sem adultos por perto, e ele precisa deter as que correm o risco de cair.

Essa visão expressa o desejo de impedir que as crianças percam a inocência, como se Holden pudesse protegê-las das quedas e de um mundo adulto que lhe parece falso ou violento. A conversa com Phoebe começa quando ela o desafia a dizer do que gosta e o que gostaria de ser, perguntas para as quais ele não encontra respostas convencionais. Em vez de escolher uma profissão, Holden oferece a fantasia do apanhador, uma resposta que revela mais sobre seu medo de crescer do que sobre um plano possível.

Phoebe não é apenas uma criança idealizada: ela percebe que Holden foi expulso, questiona as desculpas dele e oferece o dinheiro de Natal quando ele quer partir. Quando aparece com uma mala para acompanhá-lo, ele reage com dureza e lembra que ela deseja atuar na peça, mas a insistência dela acaba interrompendo a fuga e levando-o a reconsiderar o que está fazendo. A relação dos dois sugere que proteger alguém não significa apagar sua vontade, uma lição que ficará visível no passeio final.

A mudança, os patos e a memória do museu

A pergunta sobre os patos surge quando Holden tenta entender o que acontece com eles quando o lago do Central Park congela e o ambiente conhecido muda. Ele repete a dúvida aos motoristas de táxi, mas recebe respostas incompletas ou impacientes, sem chegar a uma certeza. Para o leitor, a pergunta acompanha a situação do próprio Holden, expulso de Pencey e sem saber onde ficará ou o que fará a seguir.

Essa inquietação se liga às lembranças do Museu de História Natural, lugar que Holden conhecia desde a infância. Nas suas recordações, as cenas expostas parecem eternas: o esquimó pesca, os pássaros voam para o sul e os animais permanecem na mesma posição cada vez que uma turma retorna. Ele percebe, porém, que os objetos não mudam, enquanto as crianças chegam diferentes a cada visita.

Holden gostaria de conservar certos momentos sob vidro, mas compreende que isso não é possível e que a própria lembrança se altera com quem a recorda. As inscrições obscenas que encontra nas paredes da escola e do museu o revoltam porque invadem espaços que ele queria manter seguros para as crianças; apaga uma delas, mas outra está riscada fundo demais para sair. A cena dá forma ao limite de seu impulso protetor: ele pode reagir à violência, mas não consegue removê-la do mundo.

Da fantasia de fuga a um gesto de permanência

Em Nova York, o plano de Holden muda a cada poucas horas: primeiro quer esconder a expulsão dos pais, depois imagina partir para o Oeste e viver como surdo-mudo, longe de qualquer conversa que o incomode. Depois de ser agredido por Maurice e passar a noite numa estação, o projeto de fuga parece lhe oferecer uma saída absoluta, mas nasce do cansaço e da solidão. Ao atravessar a cidade, sente que pode desaparecer e se convence, por momentos, de que está gravemente doente, sinais de uma crise que o romance apresenta sem fechar em diagnóstico.

Antes de partir, Holden vai se despedir de Phoebe, mas ela aparece com uma mala e pede para ir junto. Ao vê-la disposta a abandonar a peça da escola e a própria rotina por causa dele, ele desiste do plano, embora inicialmente fale com dureza e precise reconquistar a confiança da irmã. No carrossel, observa Phoebe tentando alcançar a argola dourada e entende que as crianças precisam poder arriscar a própria tentativa, em vez de serem agarradas a cada movimento.

A chuva cai enquanto Phoebe dá voltas, e Holden, sentado no banco e encharcado, sente uma felicidade que quase o faz chorar. Esse instante não apaga a expulsão, o luto nem a incerteza sobre o futuro, e o próprio relato não confirma como ele se sairá no próximo colégio. Já no enquadramento da recuperação, ele admite sentir saudade até de pessoas que o irritavam e lamenta ter contado a história, sugerindo que narrar os acontecimentos também o liga novamente a elas.

Notas Finais

O romance acompanha um adolescente que chama de falsidade aquilo que o fere, mas cuja dureza esconde luto, medo e desejo de pertencimento. Holden não encontra respostas definitivas para a passagem do tempo, para a vida adulta ou para seu lugar no mundo, e a aproximação com Phoebe não transforma a crise numa solução simples. Ainda assim, ao observá-la no carrossel e admitir a saudade dos outros, ele dá um passo pequeno, porém decisivo, da proteção impossível para a aceitação de que amar alguém também é permitir que siga seu caminho.

Dica do Minutobooks

Para quem se interessa por narrativas sobre adolescência, isolamento e busca por pertencimento, uma boa continuação é As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky. Assim como o romance de Salinger, o livro acompanha um jovem narrador que tenta compreender perdas, amizade e os códigos sociais que o cercam, com uma voz íntima e vulnerável. A época e o tom são diferentes, mas ambos mostram como a dificuldade de se conectar pode coexistir com um desejo intenso de ser acolhido.

Fim da resenha

Você terminou de ler a resenha de "O apanhador no campo de centeio".

Resenhas relacionadas

Ver todas as resenhas