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Biografias e Memórias

Ainda estou aqui

por Marcelo Rubens Paiva

13 min de leitura1971 palavras

Sobre o microbook

Como a memória pode falhar e, ainda assim, deixar vínculos e afetos à mostra? Em Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva aproxima a experiência do Alzheimer de sua mãe, Eunice, da lembrança do pai, Rubens, desaparecido após ser preso pela ditadura. Entre recordações, documentos e depoimentos, a narrativa reúne história familiar, luto e violência de Estado.

O que você aprenderá

A leitura mostra como lembranças pessoais se entrelaçam a testemunhos e documentos, enquanto passado e presente nem sempre se organizam com clareza. Também permite compreender, pelo cotidiano de uma criança e de sua família, os efeitos da repressão política e observar como afeto e reconhecimento podem persistir de maneira imprevisível no Alzheimer.

Sobre o autor

Marcelo Rubens Paiva é escritor, dramaturgo e roteirista, autor de romances, peças e roteiros para cinema e televisão. Seu primeiro romance, Feliz ano velho, foi publicado em 1982. Lançado pela Alfaguara em 2015, Ainda estou aqui retoma a história de seus pais e a trajetória familiar, unindo experiência pessoal e investigação histórica.

Nossa leitura começa com Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva, e suas ideias centrais.

Em Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva parte de uma pergunta que atravessa a família: o que resta quando a memória recente se apaga, mas certas pessoas e emoções ainda são reconhecidas? O Alzheimer de sua mãe, Eunice, leva o narrador de volta à vida compartilhada e à ausência do pai, Rubens, preso pela ditadura em 1971 e jamais devolvido à família. Entre lembranças pessoais, documentos e depoimentos, o livro alterna o cotidiano do cuidado com a investigação de uma violência de Estado. É uma narrativa sobre memória, luto e a persistência de quem, apesar de tudo, ainda está aqui.

A memória como travessia entre lembrança e esquecimento

Paiva organiza o livro como uma investigação sobre aquilo que lembramos e sobre o que a lembrança não consegue reter. Ele compara a memória a uma fogueira distante que orienta o barco de volta à costa, mas que pode se apagar, deixando a pessoa sem referência diante de perguntas como “Onde é aqui?”. A memória não funciona como um arquivo ordenado: passado e presente se misturam, e lembrar exige reconhecer uma experiência e situá-la.

Essa reflexão ganha corpo no Alzheimer de Eunice, que não se lembra do café da manhã nem consegue responder em que ano está, mas reconhece o filho de Marcelo, seu próprio neto, e o chama de “filhinho”. Em estágios mais avançados, canções antigas ainda lhe despertam emoção, como se a melodia alcançasse um lugar que a conversa já não alcança. Paiva não trata a memória como algo simplesmente presente ou ausente, mas como um campo irregular, em que lembranças antigas, afeto e reconhecimento persistem de modos imprevisíveis.

As próprias recordações de Marcelo também são instáveis: algumas cenas da infância se apoiam em fotografias e histórias repetidas pela família, não apenas numa certeza direta sobre o que ele viveu. Por isso, o livro retorna a acontecimentos já narrados, acrescenta detalhes e os relê à luz de testemunhos encontrados décadas depois. O autor reconhece que não há explicação definitiva para a causa do Alzheimer ou para o modo como as lembranças se apagam, e usa a escrita como uma tentativa de seguir a correnteza sem perder por completo o caminho de volta.

Uma infância atravessada pelo golpe e pela ausência

Antes de se tornar uma ausência, Rubens Paiva era engenheiro e deputado federal pelo PTB, eleito em 1962 e cassado depois do golpe de 1964. Ele defendia reformas sociais, ajudou a organizar a resistência à deposição de João Goulart e, depois de voltar do exílio, apoiou perseguidos e denunciou abusos, embora o livro ressalte que não atuava diretamente na luta armada. Marcelo reconstrói essa trajetória sem fechar todas as perguntas sobre o papel político do pai, distinguindo os fatos conhecidos das hipóteses que surgiram depois.

O autor também reconstitui a escalada do regime, que começou prometendo restaurar a democracia e logo cassou opositores, restringiu direitos e, com o AI-5, consolidou a repressão. A propaganda anticomunista tratava como ameaça não só os comunistas, mas também trabalhistas, democratas, artistas e críticos, enquanto o discurso oficial justificava a suspensão das liberdades em nome da própria democracia. Paiva lembra que o golpe teve apoio civil e militar, mas evita transformar todos os militares em culpados, separando o regime e seus agentes responsáveis da instituição inteira.

Essa história chega ao leitor pelo cotidiano de uma criança: a praia do Leblon, as partidas de futebol, as amizades e a mudança abrupta para Santos depois do desaparecimento. Marcelo vê o pai ser chamado de “terrorista” pela imprensa e por pessoas ao redor, embora, para ele, Rubens fosse sobretudo um pai cuja ausência, antes explicada pelo trabalho, tornou-se inexplicável. Assim, a história política não fica abstrata: aparece na perda dos lugares, nas relações interrompidas e numa infância que precisa amadurecer sem respostas.

O desaparecimento transforma a espera em violência

Em 20 de janeiro de 1971, homens armados à paisana invadiram a casa no Leblon e levaram Rubens, dizendo que ele prestaria depoimento. Marcelo, então com onze anos, recorda a calma quase absurda dos agentes, o almoço que Eunice lhes ofereceu e o bilhete que a mãe o mandou entregar à vizinha: “Rubens foi preso, ninguém pode vir aqui”. No dia seguinte, Eunice e a filha Eliana também foram detidas, enquanto os outros filhos foram separados e escondidos por amigos e parentes.

Em casa, a família continuava a comer e esperar, sem compreender que Rubens estava sendo torturado no DOI-Codi. Eunice passou doze dias presa, isolada e sem notícias do marido, enquanto os filhos eram enviados a diferentes lugares e recebiam explicações incompletas. Depois de solta, descobriu que as autoridades afirmavam que Rubens escapara durante uma suposta ação de guerrilheiros, versão repetida em relatórios, tribunais e pronunciamentos oficiais.

Décadas depois, depoimentos e documentos reunidos pelo Ministério Público Federal apontaram que a prisão foi desencadeada por correspondências políticas trazidas do Chile, embora outras hipóteses sobre o interesse da repressão em Rubens também tenham circulado. As provas indicaram que ele morreu sob tortura entre 21 e 22 de janeiro e que a versão da fuga foi fabricada, inclusive com o incêndio de um veículo usado na operação, mas o paradeiro do corpo permaneceu desconhecido. Paiva preserva essa diferença entre evidências e perguntas sem resposta, mostrando como a ausência de um corpo prolongou o luto e a luta contra a mentira oficial.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, o livro mostrou a memória como reconstrução instável, acompanhou a infância de Marcelo sob a sombra do golpe e revelou como a prisão de Rubens foi escondida por uma versão oficial. Essas três linhas se cruzam na figura de Eunice, que precisa sustentar a família e transforma a busca por respostas em ação pública. Na segunda metade, o foco se amplia para a mulher que ela se tornou, para a defesa dos povos indígenas e para a convivência cotidiana com o Alzheimer. Por fim, Paiva retorna à justiça incompleta e ao sentido de manter viva uma história que o Estado tentou apagar.

Eunice se reinventa e amplia a luta por direitos

Depois de voltar a São Paulo, Eunice precisou reconstruir a vida sem poder declarar o marido morto, movimentar parte dos bens ou acessar plenamente os direitos ligados à viuvez. Começou a trabalhar na empresa do pai e, aos quarenta e dois anos, entrou na faculdade de Direito, tornando-se uma advogada respeitada que sustentou a família e ampliou sua atuação pública. Paiva não a retrata apenas como heroína: mostra uma mãe reservada, pouco dada a afagos, cuja forma de amar se expressava sobretudo na praticidade, na orientação e no apoio concreto aos filhos.

Com a abertura política, Eunice recusou ficar confinada ao papel de viúva de um desaparecido e se dedicou ao direito indígena. Na Comissão Pró-Índio, defendeu os pataxós hã-hã-hãe e denunciou a invasão de suas terras, além de atuar em demandas que envolviam povos indígenas, projetos de infraestrutura e organismos como o Banco Mundial. Ela percebia uma continuidade entre a repressão contra opositores e o abandono ou a remoção de povos indígenas em nome do desenvolvimento, e tratava ambas como questões de direitos humanos.

Seu percurso também revela a transformação de uma mulher educada para o casamento, que recusou novas propostas de matrimônio e construiu independência profissional e afetiva. Participou das lutas pela Anistia e pelas Diretas Já, contribuiu para a defesa dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e passou a ser reconhecida por sua competência jurídica para além da história da família. Essa reinvenção não apagou a perda, mas fez dela um ponto de partida para uma atuação mais ampla, sem que Eunice se resumisse à imagem de vítima.

Cuidar de quem cuidou, a família diante do Alzheimer

Em 2008, quando o Alzheimer já comprometia sua autonomia, os filhos pediram a interdição judicial de Eunice, procedimento que ela conhecia bem por sua carreira de advogada. Perguntada pelo juiz por que estava ali, respondeu que estava velha e precisava que cuidassem dela, com a sinceridade direta que Marcelo associa à sua personalidade. Ele se tornou o curador legal, enquanto a irmã Veroca e os demais filhos também dividiam o cuidado cotidiano. Invertiam-se, assim, os papéis de uma vida inteira: quem cuidara dos filhos passava a depender deles.

Paiva acompanha a doença em suas manifestações concretas, sem afirmar uma causa certa nem prometer cura. Eunice, antes autônoma e minuciosa, começa a confundir dinheiro, viagens e tarefas, depois repete perguntas, se irrita, perde mobilidade e passa a precisar de cuidadoras continuamente. Com isso, o Alzheimer reorganiza a vida da família, que precisa decidir sobre moradia, segurança, rotina e assistência enquanto aceita que as capacidades perdidas não voltam.

Os familiares aprendem gradualmente a não tomar cada recusa ou explosão como uma decisão consciente contra eles, e descobrem que concordar, simplificar escolhas e preservar hábitos pode diminuir a tensão. A música, os encontros e os gestos cotidianos ainda abrem espaço para uma relação afetiva, mesmo quando a conversa se reduz a respostas curtas. Eunice, por exemplo, pega a mão mais fechada do filho tetraplégico e a alonga dedo por dedo, repetindo um cuidado que começou quando ele estava na UTI, muito antes de ela adoecer.

Justiça tardia, memória pública e o dever de não esquecer

Durante décadas, Eunice combateu a versão oficial da fuga, procurando advogados, jornalistas, autoridades e testemunhas, e repetia que esperava que quem sabia a verdade perdesse o medo de falar. A Lei 9.140, de 1995, permitiu que Rubens fosse reconhecido legalmente como morto, e, em 1996, a família finalmente obteve o atestado de óbito, encerrando parte do impasse civil e patrimonial. Mas o reconhecimento não trouxe o corpo nem reparou os anos de espera, e a família entendeu que a morte legal era uma etapa, não uma conclusão.

Em 2014, o Ministério Público Federal denunciou cinco militares, em tese, por homicídio, ocultação de cadáver, fraude processual e quadrilha armada, e a Justiça Federal recebeu a denúncia. Esse recebimento abriu uma ação penal, mas não significou uma condenação, e o Supremo Tribunal Federal suspendeu seu andamento naquele ano depois de a defesa invocar a Lei da Anistia. Quando Paiva fecha o livro, há depoimentos e documentos que desmontam a versão da fuga, mas o paradeiro dos restos mortais e a responsabilização judicial seguem sem solução.

Para o autor, a tortura não foi um desvio de um agente isolado, mas uma prática sustentada por uma estrutura estatal, por uma cadeia de comando e pelo esforço de ocultar os crimes. A família, que prefere ser lembrada como uma entre muitas atingidas pela ditadura, é apresentada ao lado de outras vítimas, inclusive dos povos indígenas. Manter essa memória viva não significa buscar vingança, mas defender a democracia, exigir esclarecimento e impedir que a violência seja naturalizada ou apagada.

Notas Finais

Em Ainda estou aqui, a memória familiar e a história política se iluminam mutuamente: uma mostra como a perda é vivida, a outra revela as instituições que a produziram e tentaram encobri-la. Eunice atravessa luto, trabalho, militância e Alzheimer sem se reduzir a nenhuma dessas condições, enquanto Marcelo escreve para preservar as contradições, os gestos e as perguntas que permanecem. O título afirma uma presença que a doença e a violência tentaram obscurecer, e transforma lembrar em uma forma de cuidado e responsabilidade pública.

Dica do Minutobooks

Para prolongar a reflexão sobre o desaparecimento político e o luto sem corpo, uma leitura próxima é K.: Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski. Nesse romance, inspirado na história da irmã do autor, desaparecida durante a ditadura, um pai procura a filha e esbarra no silêncio das instituições, ecoando a busca vivida por Eunice e Marcelo. A forma ficcional contrasta com o testemunho memorialístico de Paiva, mas ambos mostram como a ausência imposta pela repressão continua a organizar a vida dos familiares.

Fim da resenha

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