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Capa de A era do capitalismo de vigilância
Tecnologia e Inovação

A era do capitalismo de vigilância

por Shoshana Zuboff

14 min de leitura1958 palavras

Sobre o microbook:

Este microbook parte do contraste entre o Aware Home, idealizado para que moradores controlassem seus dados, e os serviços conectados que coletam informações e as compartilham. Com esse ponto de partida, apresenta a crítica de Shoshana Zuboff à transformação da experiência cotidiana em recurso comercial e pergunta quem a conhece, quem decide seu uso e que futuro digital nos resta.

O que você aprenderá:

Você conhecerá o excedente comportamental, a diferença entre dados usados para aperfeiçoar serviços e aqueles aproveitados em previsões, e por que Zuboff descreve as pessoas como fontes de matéria-prima, não como produtos vendidos. O microbook também acompanha a virada do Google para anúncios direcionados e relaciona a expansão digital à tensão entre autonomia e insegurança social.

Sobre o autor:

Pesquisadora, escritora e ativista, Shoshana Zuboff é professora emérita da Cadeira Charles Edward Wilson na Harvard Business School e foi docente associada do Berkman Klein Center para Internet e Sociedade da Escola de Direito de Harvard. Doutora em psicologia social por Harvard e bacharel em filosofia pela Universidade de Chicago, dedica sua obra às relações entre tecnologia, poder e sociedade.

Aqui, reunimos em um microbook os principais conceitos de A era do capitalismo de vigilância, de Shoshana Zuboff.

No projeto Aware Home, pesquisadores imaginaram uma casa capaz de aprender os hábitos de seus moradores, mas sob controle exclusivo deles. Anos depois, dispositivos domésticos conectados passaram a coletar informações íntimas e compartilhá-las com empresas e terceiros, conforme contratos que poucos conseguem compreender. É nessa passagem, de uma tecnologia pensada para ampliar a autonomia a uma infraestrutura de extração comercial, que Shoshana Zuboff situa o nascimento do capitalismo de vigilância. O livro nos convida a perguntar quem conhece nossas experiências, quem decide o que fazer com elas e que futuro resta quando o ambiente digital também procura orientar nosso comportamento.

A experiência humana vira matéria-prima de um novo capitalismo

Zuboff chama de capitalismo de vigilância uma lógica econômica que reivindica, unilateralmente, a experiência humana como matéria-prima gratuita. Buscas, cliques, localizações e outros rastros são convertidos em dados comportamentais, dos quais se separa um excedente além do necessário para melhorar o serviço. Esse superávit alimenta sistemas de inteligência de máquina que fabricam produtos de predição, vendidos a empresas interessadas em antecipar o comportamento futuro.

Por isso, a autora rejeita a frase de que o usuário é o produto: as pessoas são, mais precisamente, a fonte dos insumos, enquanto os produtos comercializados são previsões sobre elas. A extração não se reduz à falta de pagamento pelos dados, pois o núcleo da exploração está no uso da vida das pessoas para que terceiros possam prever e influenciar suas ações. Os mercados de comportamentos futuros começam com anúncios direcionados, mas podem abranger seguros, varejo, finanças e outros serviços.

O Google foi pioneiro ao perceber que os rastros deixados pelas buscas podiam valer mais do que o necessário para aperfeiçoar a pesquisa. Depois da crise da internet no início dos anos 2000, a empresa abandonou a antiga resistência à publicidade e transformou o excedente em base para anúncios direcionados, como o AdWords e o AdSense. Essa virada, segundo Zuboff, não foi consequência inevitável da tecnologia, mas uma invenção comercial, formulada em circunstâncias específicas e depois adotada por concorrentes. Por isso, capitalismo de vigilância designa uma lógica que dirige tecnologias, plataformas e algoritmos, não uma tecnologia particular.

A promessa digital nasce da colisão entre autonomia e insegurança

A ascensão dessa lógica, argumenta Zuboff, dependeu de uma transformação social anterior: a passagem da sociedade de massa para uma sociedade de indivíduos que desejam escolher a própria vida. A primeira modernidade oferecia papéis e trajetórias relativamente previsíveis, embora limitasse identidades e liberdades; a segunda ampliou a educação, a informação, a mobilidade e as expectativas de autodeterminação. Essa liberdade também trouxe incerteza, ansiedade e a necessidade de buscar, por conta própria, recursos para levar uma vida efetiva.

Ao mesmo tempo, décadas de políticas neoliberais enfraqueceram proteções coletivas, ampliaram desigualdades e deixaram muitas pessoas diante de instituições incapazes de atender às suas necessidades. Zuboff descreve a colisão entre esse ambiente social hostil e a busca por autonomia como um terreno fértil para a expansão digital, pois informação e conexão pareciam oferecer voz, conveniência e apoio. As empresas puderam apresentar seus serviços como resposta a necessidades genuínas, enquanto a lógica de vigilância convertia o uso cotidiano em fonte de valor para terceiros.

A combinação do iPod com o iTunes aparece como uma promessa de consumo sob medida: os ouvintes podiam reorganizar a própria música, em contraste com modelos que decidiam por eles o que comprar. Zuboff não idealiza a Apple, mas usa esse exemplo para mostrar que o capitalismo digital poderia se alinhar às escolhas dos consumidores, embora essa alternativa não tenha se consolidado sem contradições. A autora também recorda o Aware Home, projeto em que os moradores controlariam os dados coletados e decidiriam como seriam usados.

A despossessão se normaliza e protege suas rotas de extração

Uma vez estabelecido o valor do excedente comportamental, surge um imperativo de extração: ampliar sem cessar a escala e encontrar novas fontes de dados, dentro e fora da internet. Produtos e serviços conectados tornam-se também rotas de abastecimento, pois sustentam o acesso contínuo a comportamentos e informações. Com isso, práticas apresentadas como convenientes ou gratuitas podem ocultar a apropriação de experiências que antes não eram tratadas como matéria-prima comercial.

A autora descreve a despossessão como um ciclo: primeiro vem a incursão em territórios não autorizados, depois a habituação, a adaptação diante de protestos e, por fim, o redirecionamento da prática para uma forma mais aceitável. O Google Street View exemplifica o processo: sua expansão provocou objeções quando carros da empresa coletaram, além de imagens, dados de redes Wi-Fi. Após a contestação, a companhia atribuiu o ocorrido a um erro de um engenheiro e fez ajustes, mas manteve a infraestrutura de mapeamento e ampliou seus usos. Com o tempo, aquilo que despertara indignação pôde parecer parte normal da vida digital.

Esse processo é favorecido, segundo Zuboff, pelo sigilo técnico, por contratos extensos, pela dependência dos serviços e pela ideia de que a inovação é inevitável. A autora também examina um ambiente político marcado pela desregulação neoliberal e pelo enfraquecimento da proteção à privacidade, agravado após os ataques de 11 de Setembro, quando governos passaram a valorizar as capacidades privadas de vigilância. As empresas, por sua vez, investem em lobby, relações políticas e controle corporativo para resistir a limites democráticos. Assim, monopólio e privacidade são problemas reais, mas enfrentá-los isoladamente não necessariamente interrompe a lógica de acumular dados e vender predições.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, vimos como uma nova lógica transforma experiências em insumos, encontrou terreno numa sociedade marcada tanto pelo desejo de autonomia quanto pela insegurança e se consolidou por meio de incursões que tendem a ser normalizadas. Mas a disputa não permanece nas buscas e nos anúncios: a competição por previsões mais certeiras leva a vigilância para casas, corpos, veículos e relações cotidianas. Na segunda metade, acompanharemos a passagem da observação à intervenção, a ascensão do poder instrumentário e suas consequências para a autonomia individual e a democracia. Por fim, veremos por que Zuboff defende os direitos ao tempo futuro e ao santuário, além de uma resposta coletiva à resignação diante da suposta inevitabilidade.

Da previsão à modificação, o negócio da realidade

A disputa por previsões mais precisas leva o capitalismo de vigilância do mundo on-line ao mundo físico, num movimento que Zuboff chama de negócio da realidade. Economias de escala pedem mais dados, economias de escopo ampliam as fontes e economias de ação procuram intervir no comportamento para tornar os resultados mais previsíveis. A meta já não é apenas registrar o que as pessoas fazem, mas influenciar o que farão.

Na telemática de automóveis, por exemplo, seguradoras podem monitorar velocidade, frenagens, trajetos e horários, ajustar prêmios e estimular certos hábitos ao volante. Zuboff observa que dados extraídos para avaliar riscos também podem alimentar publicidade e mercados de previsões sobre consumidores. Em produtos domésticos conectados, como termostatos e aspiradores, funções úteis podem depender do envio de dados e da aceitação de termos que limitam o controle do usuário.

O Pokémon Go ilustra essa expansão de forma marcante: o jogo orientava os participantes pelo espaço urbano, enquanto locais patrocinados podiam pagar pela chance de atrair jogadores, numa lógica comparável ao custo por clique. A autora descreve sugestões digitais, pastoreamento e condicionamento como meios de sintonizar ou conduzir escolhas, às vezes sem que as pessoas percebam plenamente a intervenção. Ela contesta, por isso, a ideia de que essa trajetória seja determinada pela tecnologia: são decisões comerciais e relações de poder que convertem sensores e algoritmos em instrumentos de modificação comportamental.

O Grande Outro concentra conhecimento e institui um novo poder

Para descrever a infraestrutura que reúne sensores, dispositivos conectados e sistemas de análise, Zuboff usa o nome Grande Outro. Ela o distingue do totalitarismo clássico: não busca dominar cada alma por meio do terror, mas observar comportamentos à distância e orientar ações em favor de resultados comerciais. É uma forma de poder que a autora chama de instrumentário, fundada na capacidade de conhecer, prever e modificar a conduta sem precisar compreender seus significados íntimos.

A concentração de dados e de capacidade computacional também sequestra o que Zuboff chama de divisão da aprendizagem na sociedade: quem sabe, quem decide e quem tem autoridade para decidir. Há um texto público, feito de buscas, postagens e interações, e um texto sombra, produzido a partir desses rastros, mas mantido fora do alcance e da compreensão de quem os gerou. Como as empresas controlam esse segundo texto e os meios de analisá-lo, a assimetria de conhecimento se converte em assimetria de poder.

Zuboff associa essa tendência a visões de sociedade que tratam as pessoas como organismos previsíveis e valorizam a harmonia coletiva acima da escolha individual. Experimentos do Facebook que alteraram mensagens sobre votação ou o tom emocional do Feed de Notícias mostram, em sua análise, que plataformas podem afetar condutas e sentimentos em grande escala. Esse poder difere da coerção totalitária, mas ainda pode corroer a democracia ao substituir deliberação e política por sistemas privados que buscam certeza e conformidade.

O direito ao futuro e ao santuário exige resistência coletiva

No centro da crítica está o direito ao tempo futuro, isto é, a possibilidade de imaginar, desejar, prometer e construir uma vida que não esteja previamente calculada por terceiros. Quando sistemas tentam orientar decisões antes que sejam tomadas, a vontade de ter vontade, como a autora a formula, fica ameaçada. Também está em jogo o direito ao santuário, a existência de espaços privados nos quais alguém possa descansar do olhar alheio, experimentar a própria interioridade e formar relações de confiança.

A pressão para tornar toda experiência visível afeta especialmente os jovens, cuja identidade ainda se constrói em relação aos outros. Zuboff mobiliza pesquisas que associam o uso intenso das redes à comparação social, à ansiedade, à inveja ou à insatisfação com a vida, sem reduzir todos os efeitos a uma única causa. A lógica de curtidas e visibilidade pode transformar a necessidade de conexão em dependência e dificultar a construção de um eu capaz de reciprocidade, em vez de viver apenas pelo espelho social.

A saída, para Zuboff, não está apenas em ajustar configurações individuais, ler contratos impossíveis ou repartir o mercado entre mais empresas, pois essas medidas podem deixar intacta a lógica de extração. Ela defende declarações democráticas e ação coletiva capazes de contestar a apropriação da experiência, regular os meios de modificação comportamental e devolver às pessoas autoridade sobre o futuro digital. O reconhecimento europeu do direito de ser esquecido mostra que a suposta inevitabilidade pode ser enfrentada por leis e instituições, embora a autora não o apresente como solução completa. Por isso, seu apelo final é recuperar perplexidade, indignação e atrito, condições para decidir que tipo de mundo conectado queremos habitar.

Notas Finais

Zuboff não propõe rejeitar a tecnologia, mas recusar que uma forma específica de capitalismo determine, sem debate, seus fins e seus efeitos. Seu argumento central é que a vigilância comercial não é inevitável: foi inventada, protegida e normalizada, e pode ser limitada por instituições democráticas e mobilização social. Defender privacidade, autonomia e relações de confiança é, assim, defender a possibilidade de um futuro humano e de um lar digital construído por seus próprios habitantes.

Dica do Minutobooks

Para aprofundar o tema por uma perspectiva filosófica próxima, vale ler A sociedade da transparência, de Byung-Chul Han. Han examina como a exposição contínua e a exigência de tornar tudo visível transformam a intimidade, a comunicação e as relações sociais. Enquanto Zuboff enfatiza o modelo econômico que converte experiências em dados e previsões, Han ilumina a dimensão cultural e psicológica dessa visibilidade. Os dois livros ajudam a perceber que conexão e transparência não são neutras e levantam perguntas importantes sobre liberdade e vida privada.

Fim da resenha

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