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Estilo de Vida

Dê adeus ao excesso

por Fumio Sasaki

11 min de leitura1721 palavras

Sobre o microbook:

Em Dê adeus ao excesso, Fumio Sasaki parte da própria experiência de acumular livros, roupas e equipamentos pouco usados para investigar uma contradição: por que possuir mais nem sempre nos faz sentir mais satisfeitos? O microbook apresenta o minimalismo não como competição de escassez, mas como caminho para reconhecer o que merece lugar na vida.

O que você aprenderá:

Você conhecerá maneiras graduais de rever os pertences, identificar o que dificulta o desapego e evitar que compras e objetos sustentem apenas uma imagem. O percurso também explora como reduzir a “lista de afazeres silenciosa”, liberar tempo e foco e cultivar gratidão pelo cotidiano, sem transformar o minimalismo em regra universal.

Sobre o autor:

Fumio Sasaki é escritor, editor e minimalista japonês. Foi coeditor-chefe da editora Wani Books e cofundou o site Minimal & ism, dedicado ao minimalismo. Em Dê adeus ao excesso, transforma a própria passagem do acúmulo à vida com menos em ponto de partida para refletir sobre posses, atenção e satisfação.

Nossa conversa neste microbook parte das reflexões de Fumio Sasaki na obra Dê adeus ao excesso.

Antes de se tornar minimalista, Fumio Sasaki vivia cercado por livros que mal lia, roupas caras que quase não usava e equipamentos de hobbies abandonados. Mesmo tendo uma televisão grande e muitos objetos que imaginava necessários, comparava-se com outras pessoas e sentia que lhe faltava algo para ser feliz. Em Dê adeus ao excesso, ele parte dessa contradição para mostrar como abrir espaço em casa pode revelar o que realmente merece espaço na vida.

Minimalismo é um caminho para reconhecer o essencial

Para Sasaki, minimalismo não significa obedecer a uma contagem fixa de objetos, viver sem conforto ou fazer caber a vida inteira em uma mala. Significa reduzir os bens ao necessário e renunciar ao excesso para dedicar atenção às coisas que realmente importam. Por isso, o minimalismo é um método de descoberta, não um objetivo de escassez nem uma competição para ver quem possui menos.

A imagem de uma viagem ajuda a perceber essa diferença: com uma mala leve, é possível caminhar com liberdade, enquanto o retorno cheio de sacolas e papéis esquecidos torna tarefas simples estressantes. Sasaki vê nessa experiência um retrato de como o excesso pode dificultar a identificação do que é importante. Quando passamos muito tempo administrando os próprios pertences, as coisas que deveriam nos servir parecem começar a nos governar.

O autor relaciona o interesse contemporâneo pelo minimalismo à abundância de informação e bens, à tecnologia que reúne várias funções no smartphone e a serviços de compartilhamento que reduzem a necessidade de possuir tudo. Ele aproxima essa simplicidade de referências da cultura japonesa, como a sala da cerimônia do chá, e lembra que o terremoto e o tsunami de 2011 levaram muitas pessoas a reconsiderar seus pertences. São influências, não uma fórmula: para cada pessoa, o essencial é diferente.

O ciclo da insatisfação se alimenta da novidade

Um emprego, uma moradia ou uma roupa podem ter sido desejos sinceros, celebrados quando conquistados, mas deixam de provocar a mesma alegria quando viram parte da rotina. Sasaki recorda a satisfação inicial de se mudar para um apartamento que queria e de comprar roupas que lhe pareciam perfeitas. Anos depois, passou a ver a casa como pequena e o armário como vazio, embora aqueles desejos já tivessem sido realizados.

Para explicar esse desgaste, Sasaki recorre à adaptação: as redes neurais percebem mudanças e estímulos novos, mas reduzem a reação quando algo se torna familiar. Por isso, a jaqueta recém-comprada entusiasma mais do que a mesma peça usada pela décima vez, e a mente passa a buscar outra novidade. O desejo se renova não necessariamente porque o objeto anterior era ruim, mas porque a novidade se dissipou.

Também projetamos no futuro a felicidade que sentimos agora, embora sejamos pouco precisos ao prever como nos sentiremos depois. Sasaki menciona a experiência de Tal Ben-Shahar, que relatou que a alegria de vencer um campeonato nacional de squash durou poucas horas, para ilustrar como até uma grande conquista pode perder o brilho. Dinheiro e bens podem trazer prazer, mas não garantem contentamento permanente, e um preço maior não multiplica automaticamente a alegria.

Os objetos podem virar sinais de valor pessoal

Sasaki observa que, como animais sociais, precisamos sentir que temos valor para os outros. Buscamos reconhecimento nas relações íntimas e também nas respostas que recebemos nas redes sociais. O autor não trata esse desejo de aprovação como algo anormal, mas questiona o modo como tentamos provar nosso valor.

Os objetos podem ajudar a comunicar qualidades e gostos: roupas, móveis, livros e coleções transmitem imagens sobre quem somos. No próprio caso, Sasaki mantinha livros de filosofia e literatura que mal lia, em parte porque as estantes pareciam projetar a imagem de alguém culto e intelectualmente profundo. Também colecionava câmeras que quase nunca usava, como se os equipamentos confirmassem sua identidade de entusiasta da fotografia.

O problema surge quando as posses deixam de ser ferramentas e passam a representar a própria identidade. Nesse processo, acumulamos coisas para sustentar uma imagem e gastamos tempo e energia cuidando delas, sem necessariamente desfrutá-las. Sasaki não condena o prazer de possuir objetos, mas propõe distinguir aquilo que realmente amamos daquilo que mantemos apenas para impressionar os outros.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, o livro apresentou o minimalismo como uma escolha pessoal, explicou por que a novidade perde força e mostrou como os bens podem se transformar em sinais de valor social. A insatisfação, portanto, não vem apenas de possuir pouco, mas também de perseguir novas coisas para recuperar uma sensação que desaparece. A partir daqui, Sasaki transforma essa reflexão em práticas graduais para reduzir o excesso sem fazer do descarte uma competição. Depois, mostra o que essa mudança pode liberar e por que, para ele, a felicidade começa menos em ter e mais em perceber o presente.

Desapegar é uma habilidade, não uma prova de radicalismo

Para transformar a reflexão em ação, Sasaki diz que desapegar é uma habilidade que se desenvolve, não uma característica de personalidade reservada a poucas pessoas. Em vez de esperar que a vida se acalme, ele recomenda começar pelo que é claramente lixo, por objetos repetidos e por itens que não foram usados durante um ano, preservando exceções como peças sazonais e suprimentos de emergência. Cada decisão pequena ajuda a reconhecer o que serve à vida atual e torna as próximas escolhas menos difíceis.

Quando surge hesitação, o autor sugere perguntar por que é difícil abrir mão daquele objeto. Pode ser pelo preço pago, pela culpa de jogar fora um presente, por uma lembrança associada ao item ou pela vontade de manter determinada aparência. Sasaki lembra que descartar uma recordação material não significa apagar a memória, e conta que fotografou objetos e digitalizou cartas antes de se desfazer deles. Essas imagens o ajudaram a começar, embora ele reconheça que raramente voltava a consultá-las.

Vender, doar, emprestar ou alugar podem ser alternativas para que os objetos continuem úteis, e a regra de um item que entra para cada item que sai ajuda a evitar novo acúmulo. Sasaki também recomenda considerar lojas como lugares onde se pode buscar algo quando necessário, em vez de manter estoques em casa. Mas as dicas são ferramentas, não leis universais: o minimalismo não exige austeridade nem deve se transformar em competição ou compulsão por jogar tudo fora. Organizar, por si só, não resolve o problema se a quantidade de pertences continuar excessiva.

Menos posses devolvem tempo, foco e liberdade

Os efeitos concretos aparecem primeiro no uso do tempo: com menos objetos, Sasaki relata que passou a limpar e arrumar a casa diariamente, sem o peso de uma longa lista de tarefas acumuladas. Ele acordava mais cedo, preparava o café da manhã e lavava a louça logo após comer, não porque sua personalidade tivesse mudado, mas porque as tarefas ficaram mais simples. Em uma mudança, conta que conseguiu retirar seus pertences do apartamento em cerca de trinta minutos.

As coisas não ocupam apenas espaço físico, elas também enviam mensagens silenciosas sobre aquilo que ainda precisa ser feito. Sasaki chama de “lista de afazeres silenciosa” o conjunto de tarefas sugeridas por objetos negligenciados, como uma lâmpada queimada, louça acumulada ou uma pilha de papéis. Quando reduzimos esses itens, diminuem também as distrações, e fica mais fácil concentrar a atenção no que realmente importa.

Menos pertences podem reduzir gastos com moradia, compras e contas, pois tornam possível escolher um espaço menor e manter uma vida mais simples. Para Sasaki, essa redução dos custos amplia a liberdade de mudar de casa, trabalho ou estilo de vida, sem sustentar um padrão apenas para impressionar. Ele também associa consumir e manter menos coisas a menor desperdício e uso de energia, como consequência natural, não como uma nova obrigação.

A felicidade é sentida no presente, não acumulada para o futuro

Sasaki cita o modelo histórico de Sonja Lyubomirsky e colaboradores que atribuía cerca de cinquenta por cento das diferenças de felicidade entre pessoas à genética, dez por cento às circunstâncias e quarenta por cento às atividades intencionais. Esses números não representam fatias fixas da felicidade de cada indivíduo; o modelo foi posteriormente contestado e revisto pelos próprios pesquisadores. No livro, Sasaki o usa para questionar a ideia de que emprego, casamento, casa, filhos ou riqueza garantem contentamento duradouro. As circunstâncias podem trazer alegrias reais, mas nos acostumamos às mudanças e elas deixam de produzir a euforia inicial. A felicidade, conclui, não é um prêmio permanente ao fim de uma meta, mas uma experiência que só pode ser sentida no presente.

Para combater a familiaridade, o autor propõe cultivar a gratidão pelo que já faz parte da vida. Ele recorre às cinco reflexões budistas recitadas antes das refeições, que convidam a lembrar como o alimento chegou à mesa, comer com atenção e reconhecer que a refeição sustenta a vida. Essa atitude também pode mudar a percepção de situações comuns, como o caminho para o trabalho ou uma refeição simples.

Ao liberar tempo e energia, o minimalismo pode favorecer relações mais profundas, não por magia, mas ao reduzir atritos domésticos e comparações. Sasaki conta que passou a enxergar as pessoas menos pelo que possuem e mais como seres humanos com desejos e preocupações próprios. Ele destaca que a satisfação se fortalece quando é compartilhada e que os gestos de cuidado podem gerar alegria, recolocando a felicidade nos vínculos, não na coleção de objetos.

Notas Finais

Sasaki não propõe que todos vivam com a mesma quantidade de objetos, mas que percebam o que o excesso está exigindo de seu tempo, sua energia e sua atenção. Desapegar pode ser uma forma de distinguir necessidades de aparências e de abrir espaço para as experiências e relações que dão sentido à vida. No centro do livro está a ideia de que a felicidade não precisa esperar pela próxima conquista, ela pode ser reconhecida no presente.

Dica do Minutobooks

Para quem deseja levar essa reflexão para a organização da casa, uma leitura complementar é A mágica da arrumação, de Marie Kondo. Assim como Sasaki, Kondo propõe avaliar os objetos pelo efeito que exercem e manter aquilo que tem significado, oferecendo um método concreto para lidar com o excesso. Sasaki amplia a conversa para temas como autoestima, tempo e felicidade, por isso os dois livros se complementam.

Fim da resenha

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