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Estilo de Vida

Hygge

por Meik Wiking

12 min de leitura1660 palavras

Sobre o microbook

Como criar, no cotidiano, uma sensação de acolhimento e bem-estar que não depende de grandes ocasiões? Em Hygge, Meik Wiking explora esse conceito como uma atmosfera de presença, intimidade e abrigo, que pode surgir tanto entre amigos quanto em momentos simples de pausa. O microbook investiga como cultivar essas condições sem tratá-las como fórmula para a felicidade.

O que você aprenderá

Você verá como a iluminação suave, cantos acolhedores e objetos afetivos ajudam a compor um refúgio; como refeições preparadas em conjunto e comidas simples podem fortalecer a convivência; e como adaptar rituais às estações, buscar a natureza e reconhecer a importância do apoio social, sem apresentar o hygge como explicação única para a felicidade.

Sobre o autor

Meik Wiking é pesquisador de felicidade, autor e fundador e CEO do Happiness Research Institute, em Copenhague. Seu trabalho se volta à felicidade, ao bem-estar e à qualidade de vida. Entre suas obras está The Little Book of Hygge, publicado pela Penguin Life, que apresenta o conceito explorado neste microbook a partir de pesquisas e práticas cotidianas.

A partir de Hygge, de Meik Wiking, reunimos as reflexões que dão forma a este microbook.

Pouco antes do Natal, depois de uma trilha, Meik Wiking e os amigos voltaram a um chalé antigo, cercado por uma paisagem coberta de neve, e se acomodaram diante da lareira. O ensopado borbulhava, a lenha estalava e, entre goles de vinho quente, alguém perguntou se aquele momento era hygge, uma pergunta que recebeu o assentimento silencioso do grupo. A lembrança abre a investigação de Wiking sobre uma sensação difícil de traduzir, feita de segurança, intimidade e calma, que pode surgir entre amigos ou na companhia de uma xícara de chá. Em vez de oferecer uma fórmula mágica para a felicidade, o autor apresenta o hygge como uma arte cotidiana de criar condições para o bem-estar.

Hygge é uma atmosfera de presença e abrigo, não um objeto

O ponto de partida de Wiking é que hygge não designa um objeto, mas uma atmosfera de intimidade, conforto e acolhimento, como a sensação de estar em casa e protegido do mundo. Pode nascer de uma conversa séria, de um bate-papo sem assunto ou do silêncio compartilhado, e também de um instante solitário com uma xícara de chá. Por isso, traduzir a palavra apenas como “aconchego” ajuda, mas não dá conta de todas as suas camadas.

O primeiro registro escrito de hygge em dinamarquês data do início do século XIX, embora a palavra tenha raízes norueguesas e se associe a bem-estar. Outras culturas têm conceitos aparentados, como gezelligheid, na Holanda, koselig, na Noruega, e Gemütlichkeit, na Alemanha. Para Wiking, o sentimento não pertence exclusivamente aos dinamarqueses, mas a frequência com que falam dele e o incorporam à vida cotidiana tornou o hygge uma parte marcante de sua identidade cultural.

Essa ideia aparece no Manifesto do Hygge, que valoriza presença, prazer, igualdade, gratidão, conforto, união e abrigo. Desligar o celular, dividir as tarefas e deixar a competição de lado são maneiras de sinalizar que aquele momento é um espaço de tranquilidade e segurança. Assim, dar um nome à experiência também ajuda a reconhecê-la, planejá-la e cultivá-la.

A luz e o lar criam um refúgio para os sentidos

Os longos meses escuros e chuvosos ajudam a explicar por que os dinamarqueses aperfeiçoaram uma iluminação acolhedora, especialmente dentro de casa. Em uma pesquisa citada por Wiking, 85% associaram velas ao hygge, e o consumo dinamarquês chega a cerca de seis quilos de parafina por pessoa ao ano. O autor também registra uma ressalva importante: velas liberam fuligem e partículas, por isso é recomendável arejar o ambiente depois de usá-las.

Para além das velas, a luz deve ser suave e distribuída em focos menores, em vez de concentrada em uma lâmpada forte no teto. O designer Poul Henningsen dedicou a carreira a criar luminárias que espalham a claridade sem ofuscar os olhos, preservando a suavidade de uma chama. A luz quente de uma fogueira ou do pôr do sol, observa Wiking, oferece uma referência para criar uma atmosfera relaxante.

O lar é a sede mais comum do hygge: sete em cada dez dinamarqueses dizem vivenciá-lo principalmente em casa. Um hyggekrog, ou cantinho aconchegante, pode reunir uma janela, uma manta, almofadas, um livro e algo quente para beber. Madeira, cerâmica, objetos antigos e itens com valor afetivo também fazem diferença, porque o ambiente acolhedor não depende apenas da aparência, mas das sensações e lembranças que as coisas carregam.

A união transforma a convivência em apoio

Quando Wiking pede às pessoas que se lembrem de uma ocasião em que foram realmente felizes, quase sempre vê muitos rostos se iluminarem. Em seguida, pergunta se a lembrança envolvia outras pessoas, e cerca de nove em cada dez levantam a mão, embora ele reconheça que esse exercício não é uma prova científica. Ainda assim, suas pesquisas apontam repetidamente para a importância dos relacionamentos como um dos principais indicadores de felicidade.

No hygge, a convivência não precisa ser uma festa cheia de estímulos. O clima costuma ser informal, e ninguém deve monopolizar a conversa ou transformar o encontro numa competição; até preparar a comida junto pode reforçar a sensação de igualdade. Segundo a Pesquisa Social Europeia citada pelo autor, 78% dos dinamarqueses se encontram semanalmente com outras pessoas, contra uma média de 60% na Europa, algo que Wiking relaciona também ao tempo reservado para a vida pessoal.

Essa intimidade pode ser especialmente agradável para pessoas introvertidas, que talvez prefiram estar com poucos amigos próximos a participar de grandes eventos. Mas o hygge também tem um lado menos acolhedor: grupos muito unidos podem dificultar a entrada de pessoas novas. Wiking observa que, na Dinamarca, formar amizades pode exigir tempo e persistência, embora os laços estabelecidos costumem durar.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, vimos o hygge como uma sensação de presença e segurança, apoiada por ambientes acolhedores e relações em que as pessoas podem relaxar sem competir. A luz, os objetos e os pequenos espaços ajudam a criar essa atmosfera, mas não a substituem. Daqui em diante, veremos como a comida, os rituais simples e o contato com a natureza podem levar o hygge ao cotidiano, e por que o autor o relaciona à felicidade sem tratá-lo como uma explicação única.

A comida transforma o prazer simples em ritual compartilhado

Bebidas quentes ocupam o primeiro lugar entre as coisas que os dinamarqueses associam ao hygge: em uma pesquisa mencionada por Wiking, 86% fizeram essa ligação. Café, chá, chocolate quente e vinho quente aparecem junto de bolos e doces, pois o hygge também envolve permitir-se pequenos prazeres. Isso não significa comer sem limites, mas saborear algo gostoso sem transformar cada escolha numa cobrança.

O processo de preparar a comida pode ser tão importante quanto o resultado. Wiking valoriza pratos que cozinham devagar, geleias feitas em casa e receitas que guardam lembranças; ele ainda prepara, no aniversário da mãe falecida, o prato favorito dela, almôndegas ao curry. Nesse caso, cozinhar é uma maneira de recordar e de transformar a saudade em um momento de convivência.

Uma noite do clube de comida do autor ilustra que o encontro não precisa terminar com um prato perfeito: depois de horas preparando linguiças artesanais, o grupo provou algo que considerou intragável e foi dormir com fome. Mesmo assim, Wiking descreve a noite como muito hyggelig, porque o prazer estava em fazer aquilo juntos. Refeições simples, conversas na cozinha e tarefas divididas podem criar mais intimidade do que um jantar sofisticado servido por uma única pessoa.

Pequenos rituais mantêm o hygge ao alcance o ano inteiro

O hygge não precisa de luxo, e Wiking ressalta que gastar mais dinheiro não garante uma atmosfera melhor. Um chá, um jogo de tabuleiro, uma comida caseira ou uma conversa com amigos podem oferecer mais aconchego do que champanhe e ostentação. O que não se compra é a disposição de reservar tempo, prestar atenção e se comprometer com as pessoas presentes.

Embora o outono e o inverno sejam as estações mais associadas ao hygge na Dinamarca, a prática pode mudar conforme o clima e o lugar. Nos meses quentes, Wiking sugere experiências como piqueniques, colheita de frutas, churrascos e passeios de bicicleta; quando esfria, entram em cena as sopas, as mantas e os encontros junto à lareira. A proposta é adaptar os rituais à vida de cada pessoa, sem esperar por uma ocasião extraordinária.

O contato com a natureza também favorece momentos de calma, seja num chalé, numa praia ou ao redor de uma fogueira. Caminhar, cozinhar ao ar livre ou simplesmente permanecer em silêncio com outras pessoas permite desacelerar e aproveitar o presente. E o hygge pode chegar ao trabalho: 78% dos dinamarqueses consultados acreditavam que o ambiente profissional também deveria ser hyggeligt, com mais informalidade, conforto e convivência.

O hygge pode alimentar a felicidade, mas não a explica sozinho

Wiking trata a felicidade como algo que pode ser estudado sem reduzi-la a uma única emoção. Ele distingue a satisfação geral com a vida, os sentimentos vividos no cotidiano e a sensação de propósito, três dimensões que ajudam a observar experiências diferentes. A felicidade continua sendo subjetiva, mas pesquisas podem identificar padrões e fatores que aparecem com frequência entre pessoas que se sentem bem.

O bom desempenho da Dinamarca em levantamentos internacionais não se deve apenas ao hygge. Wiking destaca a importância de políticas públicas que reduzem riscos e incertezas, como o acesso à saúde e à educação e o apoio a pessoas desempregadas. Confiança, liberdade, boa administração pública e tempo para a vida pessoal também fazem parte do quadro, e o autor ressalta que a Dinamarca enfrenta problemas como qualquer outro país.

Ainda assim, Wiking considera possível que o hygge contribua para o bem-estar diário, sobretudo por valorizar relações próximas, apoio social e a capacidade de saborear o que já existe. Ele também apresenta pesquisas sobre gratidão que a associam a emoções positivas, melhor qualidade do sono e maior disposição para ajudar. A ligação entre hygge e felicidade é uma hipótese plausível para o autor, não uma explicação isolada para os índices de um país.

Notas Finais

O hygge não é uma fórmula para eliminar as dificuldades, mas uma maneira de criar pausas de segurança, conforto e vínculo dentro da vida comum. Luz suave, comida compartilhada, natureza e rituais simples podem ajudar, desde que estejam a serviço da presença e não da aparência. No centro da proposta está uma ideia modesta: dedicar tempo às pessoas e aos prazeres cotidianos pode tornar a felicidade mais próxima e frequente.

Dica do Minutobooks

Para continuar explorando como uma cultura transforma hábitos cotidianos em caminhos para o bem-estar, vale ler Ikigai: Os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz, de Héctor García e Francesc Miralles. Assim como Wiking apresenta o hygge, os autores investigam um conceito japonês ligado a propósito, rotina e qualidade de vida. Os dois livros convidam a perceber que o bem-estar pode nascer menos de grandes conquistas e mais da maneira como vivemos cada dia.

Fim da resenha

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