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Arte e Cultura

Isso é arte?

por Will Gompertz

15 min de leitura2026 palavras

Sobre o microbook:

Uma obra pode ser arte mesmo quando parece um objeto banal, um gesto ou uma ideia? A partir desse desconcerto, este microbook apresenta o percurso de 150 anos da arte moderna narrado por Will Gompertz, mostrando como artistas desafiaram convenções, mudaram os materiais e ampliaram os critérios pelos quais o público reconhece uma obra.

O que você aprenderá:

Você acompanhará a ruptura de Duchamp com os readymades e a mudança de foco da manufatura para a ideia; verá como os impressionistas levaram a pintura ao ar livre e ao cotidiano, e como Van Gogh, Gauguin, Seurat e Cézanne exploraram, de modos distintos, emoção, símbolo, cor e percepção.

Sobre o autor:

Will Gompertz é escritor e jornalista britânico, conhecido por escrever sobre arte para públicos amplos. Na apresentação da edição brasileira, é identificado como editor de artes da BBC. Essa experiência se reflete na abordagem de Isso é arte?, que organiza movimentos e artistas em uma narrativa acessível sobre as transformações da arte moderna.

Este microbook convida você a conhecer as ideias centrais de Isso é arte?, de Will Gompertz.

A Tate comprou 120 tijolos comuns e os expôs como escultura. Décadas depois, adquiriu instruções para que atores formassem uma fila diante de uma porta fechada. Diante dessas obras, a pergunta surge quase naturalmente: isso é arte, ou apenas um gesto banal apresentado num museu? Will Gompertz usa esse desconcerto para percorrer 150 anos de arte moderna, mostrando como artistas mudaram tanto as obras quanto as regras usadas para reconhecê-las.

Quando uma ideia passa a valer como obra

Em 1917, Marcel Duchamp comprou um mictório de porcelana, virou-o, assinou-o com o pseudônimo “R. Mutt” e o chamou de Fonte. Ele o enviou à Exposição dos Artistas Independentes, que prometia aceitar as obras dos membros mediante pagamento, mas o comitê recusou a peça por considerá-la vulgar e ofensiva. O gesto transformou um objeto industrial banal numa provocação pública, pois a questão já não era apenas como algo havia sido feito, mas quem tinha autoridade para chamá-lo de arte.

Duchamp chamou esse procedimento de readymade: escolher um objeto, alterar sua posição ou contexto, dar-lhe um nome e deslocá-lo de sua função cotidiana. Com isso, a ideia vinha antes do meio, e o artista podia recorrer a qualquer material capaz de expressá-la, em vez de obedecer às fronteiras tradicionais entre pintura e escultura. A roda de bicicleta e a pá para neve que Duchamp já havia apresentado como arte indicavam que a criação também podia consistir numa decisão intelectual, não apenas na fabricação manual de um objeto.

A obra original desapareceu, mas a fotografia feita por Alfred Stieglitz preservou seu registro e permitiu que Duchamp autorizasse réplicas. Assim, a força de Fonte está menos na porcelana do que na mudança de contexto e no debate que ela continua provocando. Gompertz reconhece as dúvidas que essa virada suscita, como o risco de a ideia prevalecer sobre a habilidade técnica ou de os museus se tornarem árbitros de uma nova convenção. Em sua leitura, porém, Duchamp libertou a arte da obrigação de imitar o mundo e ampliou os meios disponíveis para os artistas.

Os impressionistas escolhem pintar o presente

Antes de Monet e seus colegas, a Academia de Paris privilegiava temas mitológicos, religiosos ou clássicos, tratados com desenho idealizado e acabamento minucioso. Courbet contestou esse gosto ao pintar a vida comum sem embelezamento, enquanto Delacroix mostrou que cores e pinceladas enérgicas podiam comunicar a intensidade política e emocional do presente. Manet reuniu essas pressões em Almoço na relva, recusada pelo Salão, e em Olympia, aceita mais tarde, mas recebida com escândalo por apresentar uma prostituta sem idealização. O Salão dos Recusados abriu uma alternativa aos artistas rejeitados, e Baudelaire defendeu que o pintor da vida moderna observasse a cidade como flâneur, atento à multidão e ao transitório.

Os impressionistas romperam com o ateliê ao pintar ao ar livre, aproveitando os tubos portáteis de tinta e a fotografia, que havia ampliado o interesse pelo cotidiano. Como a luz mudava depressa, usavam pinceladas visíveis e cores intensas para registrar o que viam naquele instante, em vez de recorrer às cores convencionais de cada objeto. Monet demonstrou esse interesse em Impressão, sol nascente, enquanto Degas, embora preferisse trabalhar no ateliê e estudar o movimento, absorveu o enquadramento ousado das estampas japonesas. De maneiras diferentes, esses artistas fizeram da vida urbana e de seus lazeres assuntos dignos de pintura.

Em 1874, o grupo organizou uma mostra independente, e o crítico Louis Leroy transformou o título de uma tela de Monet, Impressão, sol nascente, em rótulo inicialmente zombeteiro para o movimento. A rejeição e a falta de renda continuavam ameaçando artistas que haviam rompido com o mercado controlado pela Academia. Paul Durand-Ruel comprou suas obras, ajudou a sustentá-los e construiu uma clientela, primeiro aproximando-os dos paisagistas de Barbizon e depois apresentando-os a outros públicos, inclusive nos Estados Unidos. Seu apoio não trouxe sucesso imediato, mas contribuiu para que o impressionismo se consolidasse como imagem da vida moderna.

Do sentimento à percepção, os caminhos pós-impressionistas

Van Gogh, Gauguin, Seurat e Cézanne não formaram uma escola uniforme, e o nome pós-impressionismo só foi criado mais tarde por Roger Fry para reuni-los. Van Gogh conservou temas cotidianos, mas intensificou a cor, a pincelada e a matéria para expressar como se sentia, não apenas o que via, como mostram Os comedores de batata e suas obras de Arles. Essa subjetividade ajudou a abrir caminho ao expressionismo, que encontraria ecos em artistas como Edvard Munch.

Gauguin, por sua vez, considerava insuficiente a observação objetiva e usava cor e símbolo para trazer a imaginação à pintura. Em Visão após o sermão, o campo vermelho separa a vida cotidiana das camponesas da luta bíblica que elas imaginam, enquanto suas cenas do Taiti misturam idealização, crítica à colonização e contradições pessoais. Seurat buscou outra saída, empregando estudos de cor e pontos de pigmento separados para obter luminosidade e disciplina, como em Domingo à tarde na ilha de La Grande Jatte, onde as figuras parecem imóveis.

Cézanne queria tornar o impressionismo mais sólido sem abandonar o estudo direto da natureza. Nas naturezas-mortas e paisagens, combinou ângulos diferentes, como se pintasse com dois olhos, simplificou os objetos em formas geométricas e organizou as cores para que a composição funcionasse como um todo. Sua busca por uma imagem mais próxima de uma percepção humana móvel e múltipla ajudou a preparar o cubismo e diversas formas de abstração, razão pela qual Picasso o chamou de pai de todos nós.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, a pergunta de Duchamp deslocou o foco do objeto para a ideia e para o contexto, enquanto os impressionistas romperam com a Academia ao pintar a vida contemporânea e sua luz instável. Com Van Gogh, Gauguin e Seurat, a pintura se tornou expressiva, simbólica ou científica, enquanto Cézanne investigou a própria maneira de ver. Na segunda metade deste percurso, essas experiências se desdobram em abstração, novos usos dos materiais e mudanças no papel do público. Depois, a narrativa chega à arte pós-moderna e contemporânea, marcada por citações, mercado global e novas formas de ocupar os espaços públicos.

Da desconstrução à abstração, a arte inventa novas regras

Nas primeiras décadas do século XX, artistas buscaram em máscaras e objetos de culturas não ocidentais novas formas e impulsos, embora a palavra “primitivo”, comum à época, carregasse um olhar colonial e condescendente. Os fauvistas Matisse, Derain e Vlaminck responderam com cores não naturalistas e formas simplificadas. Inspirado por Cézanne e pela arte africana, Picasso fez de Les demoiselles d’Avignon um passo decisivo rumo ao cubismo. Com Braque, fragmentou os temas para mostrá-los de vários pontos de vista e incorporou materiais cotidianos, como papel e oleado, ampliando o que podia entrar numa obra.

Os futuristas, liderados pelo poeta Marinetti, celebraram velocidade, máquinas e ruptura, traduzindo o dinamismo moderno em imagens fragmentadas, como Formas únicas de continuidade no espaço, de Boccioni. A exaltação da guerra e do militarismo ligou parte do movimento a uma política perigosa, embora não se deva reduzir toda a produção futurista ao fascismo que Marinetti apoiou mais tarde. Em paralelo, Kandinsky e Delaunay levaram cor e música à abstração, tentando criar composições que agissem como experiências sonoras, sem depender de temas reconhecíveis.

Na Rússia, Malevich reduziu a pintura a formas elementares em Quadrado negro, enquanto Tatlin explorou materiais industriais e os construtivistas aproximaram arte, design e projeto social depois da revolução. Mondrian buscou equilíbrio com linhas pretas e cores primárias, e a Bauhaus de Walter Gropius reuniu arte, artesanato, arquitetura e tecnologia, influenciando o design e a construção modernos. Esses projetos não eram idênticos, alguns aspiravam a uma ordem espiritual, outros a uma sociedade nova, mas todos ampliaram a presença da arte abstrata no cotidiano. A ascensão nazista encerrou a Bauhaus, e a dispersão de seus artistas ajudou a levar essa linguagem para outros países, inclusive os Estados Unidos.

Da obra-objeto à ideia, ao gesto e à participação

Durante a Primeira Guerra, o dadaísmo atacou a confiança em razão, ordem e patriotismo que seus integrantes associavam à catástrofe, recorrendo ao acaso, ao absurdo e à provocação. De Hugo Ball e Tristan Tzara a Kurt Schwitters, os dadaístas usaram poemas aleatórios, performances e materiais descartados, enquanto Duchamp levou a provocação mais longe com os readymades. Breton transformou esse impulso no surrealismo, explorando sonhos, associações livres e inconsciente em obras tão diferentes quanto as de Dalí, Magritte e Miró.

A partir dos anos 1940, com Nova York assumindo o centro da arte moderna, o expressionismo abstrato fez da tela o registro de um gesto e de uma experiência. Pollock pingava e derramava tinta sobre telas estendidas no chão, transformando a pintura numa ação física, enquanto Rothko buscava, com grandes campos de cor, suscitar emoções e uma relação contemplativa. As fotografias de Hans Namuth ajudaram a transformar Pollock em celebridade e tornaram visível seu processo, ao mesmo tempo que artistas como De Kooning mostravam que abstração e figuração podiam coexistir.

A pop art voltou os olhos para as mercadorias e a mídia de massa, usando latas de sopa, imagens de Marilyn Monroe e histórias em quadrinhos para questionar as fronteiras entre alta cultura, consumo e reprodução. Warhol e Lichtenstein imitaram técnicas comerciais, enquanto Rauschenberg misturou objetos encontrados, pintura e escultura em Combinações como Monograma. Os happenings de John Cage e Allan Kaprow, o Fluxus, a arte povera, as performances de Beuys e Abramović e o minimalismo de Judd e Andre deslocaram ainda mais a atenção para a ideia, a ação, o material e o espaço.

Entre a crítica, a autopromoção e a experiência contemporânea

Do pós-modernismo em diante, muitos artistas desconfiaram das narrativas únicas de progresso e trabalharam com citações, apropriações, imagens da mídia e identidades encenadas. Nas fotografias de Cindy Sherman, a artista assume clichês femininos de filmes que nunca existiram, enquanto Jeff Wall constrói cenas que parecem documentais, mas são encenadas e dialogam com pinturas antigas. Barbara Kruger toma a linguagem direta da publicidade para criticá-la, mostrando como a arte pode ser irônica e acessível, mas também recompensa quem percebe suas referências.

Para descrever o período mais recente, Gompertz evita inventar um rótulo definitivo e propõe o espírito empresarial como um traço marcante. Ele o observa desde Freeze, mostra organizada por Damien Hirst, até a expansão do mercado internacional em torno dos Young British Artists. Artistas como Hirst e Tracey Emin combinaram provocação, autobiografia, mídia e construção de marca, enquanto obras de Hirst, de animais conservados a esculturas espetaculares, alcançaram preços extraordinários. A venda direta de suas novas obras na Sotheby’s, em 2008, coincidiu com o colapso do Lehman Brothers, expondo a proximidade entre arte, prestígio e finanças, sem reduzir toda produção contemporânea ao comércio.

A popularidade de esculturas monumentais e instalações participativas aproximou a arte de experiências de entretenimento, embora, como observa Gompertz, a interação nem sempre gere a troca social que alguns curadores prometem. Em outra direção, Banksy e JR ocupam espaços públicos, e Ai Weiwei combina criação com intervenção política, lembrando que a cena atual reúne intenções muito diferentes. Para o autor, diante de uma obra nova, o caminho mais produtivo é perguntar onde ela se encaixa nessa história, não julgá-la depressa por parecer bonita, difícil ou absurda.

Notas Finais

Em vez de oferecer uma definição eterna de arte, Gompertz mostra que cada geração questiona os meios, as instituições e as expectativas de seu tempo. Do readymade aos campos de cor, das colagens às performances e à arte de rua, as obras ganham sentido em diálogo com o que veio antes e com o mundo que as cerca. Por isso, diante de uma peça estranha, o primeiro passo não precisa ser julgá-la, mas perguntar que problema ela tenta formular e que lugar ocupa nessa história.

Dica do Minutobooks

Para continuar a leitura, vale buscar O choque do novo, de Robert Hughes, uma obra sobre arte moderna que Gompertz menciona entre as narrativas importantes do período. Com um tom mais crítico e ensaístico, Hughes examina movimentos e artistas que também aparecem aqui, oferecendo um contraponto à apresentação acessível e bem-humorada de Gompertz. É uma boa escolha para aprofundar as relações entre arte, política, mercado e sociedade.

Fim da resenha

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