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Sociedade e Política

Sejamos todos feministas

por Chimamanda Ngozi Adichie

13 min de leitura1951 palavras

Sobre o microbook

Em Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie parte de experiências pessoais e cenas cotidianas para perguntar por que a desigualdade entre mulheres e homens ainda parece natural. O microbook apresenta o feminismo como defesa da igualdade social, política e econômica e examina estereótipos que limitam escolhas, autoridade e reconhecimento.

O que você aprenderá

Você acompanhará exemplos de como pressupostos de gênero aparecem na escola, no trabalho e em interações cotidianas, além de entender por que mulheres são pressionadas a conter a raiva e priorizar a aprovação. A leitura também aborda expectativas distintas para meninos e meninas, divisão doméstica, autonomia e a participação de todos na mudança cultural.

Sobre o autor

Nascida em Enugu, na Nigéria, em 1977, Chimamanda Ngozi Adichie é romancista e ensaísta. Seu discurso no TEDx Euston, “We Should All Be Feminists”, deu origem ao livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras como Sejamos todos feministas. Sua obra inclui também Americanah e Para educar crianças feministas.

As próximas reflexões se apoiam na obra Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie.

Aos nove anos, Chimamanda Ngozi Adichie tirou a maior nota de sua turma e esperava tornar-se monitora, mas a professora escolheu um menino que havia ficado em segundo lugar. A regra nunca fora anunciada: para a professora, parecia óbvio que o cargo caberia a um garoto. Anos depois, a escritora reconheceria nesse episódio uma lição precoce sobre como expectativas de gênero se disfarçam de normalidade. Em Sejamos todos feministas, ela transforma experiências pessoais e observações cotidianas em um convite para questionar essas regras e imaginar relações mais justas.

O feminismo além das caricaturas

Para Adichie, a palavra “feminista” chegou acompanhada de desconfiança: aos catorze anos, o amigo Okoloma a chamou assim durante uma discussão, como se apontasse algo condenável. Mais tarde, um jornalista aconselhou-a a evitar o rótulo, pois, segundo ele, feministas seriam mulheres infelizes e incapazes de encontrar marido. Outros interlocutores disseram que o feminismo era antiafricano ou que significava odiar os homens.

Em resposta, a autora passa a se definir, em tom irônico, como uma “feminista feliz e africana” que não odeia homens e gosta de batom e salto alto por si mesma. Essa sucessão de qualificações mostra o quanto uma mulher parece precisar se justificar antes de reivindicar igualdade. O estereótipo descreve a feminista como zangada, sem humor, contrária à cultura ou à feminilidade, em vez de examinar suas ideias.

A definição que encontrou no dicionário é direta: feminista é a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos. Isso não significa desejar que mulheres dominem os homens, mas reconhecer que uma desigualdade persistente precisa ser enfrentada. Ao reivindicar a palavra, Adichie trata o feminismo não como uma identidade de ressentimento, mas como uma posição em favor da igualdade.

Quando a desigualdade parece normal

Para mostrar como a desigualdade se naturaliza, Adichie volta à escola: a professora escolheu um menino para monitor mesmo quando ela havia obtido a nota mais alta. A professora nem sequer explicara que o cargo seria reservado a um menino, pois lhe parecia óbvio. Para a autora, aquilo que se repete, como homens ocupando cargos de chefia, acaba sendo percebido como normal.

Em Lagos, depois de Adichie dar uma gorjeta a um homem que ajudara a estacionar o carro, ele agradeceu ao amigo dela, Louis, como se o dinheiro viesse dele. Louis percebeu naquele instante que o flanelinha presumira que uma mulher não poderia ser a fonte do pagamento. Em outro hotel, um segurança presumiu que uma nigeriana sozinha fosse prostituta. Adichie também relata que mulheres desacompanhadas podem ser barradas em bares e que, nos restaurantes, garçons costumam cumprimentar o acompanhante masculino e ignorá-las.

Essas cenas mostram que a desigualdade também se instala em gestos cotidianos, nos quais mulheres podem ser tratadas como menos legítimas ou menos dignas de atenção. No discurso que deu origem ao livro, Adichie menciona que as mulheres seriam 52% da população mundial; esse percentual deve ser lido como uma afirmação daquele discurso, não como uma estatística atual. Dados do Banco Mundial para 2025 situam essa proporção em 49,7%. O ponto central da autora é que os postos de maior poder e prestígio continuam majoritariamente ocupados por homens. A discussão nos Estados Unidos em torno da lei Lilly Ledbetter, voltada à equiparação salarial, evidencia que a diferença de remuneração para trabalhos equivalentes permanece uma questão concreta. Embora existam diferenças biológicas, inteligência, criatividade e capacidade de liderança não pertencem a um sexo, e a força física já não é um critério razoável para determinar quem deve governar.

A raiva feminina e o preço de ser benquista

Adichie rejeita a exigência de que uma mulher fale sobre a desigualdade sem demonstrar raiva, pois considera a questão uma injustiça profunda. Ela cita uma amiga que, ao aplicar a mesma disciplina de um antecessor homem, foi chamada de agressiva e difícil, embora ele tivesse sido elogiado como um “cara durão”. O contraste revela que muitas vezes não se julga apenas a conduta, mas se a mulher ultrapassou o comportamento considerado aceitável para seu gênero.

Uma segunda amiga, que trabalha com publicidade, hesita em contestar a chefe depois de ver uma ideia sua ignorada e elogiada quando reaparece pela voz de um homem. Com medo de parecer agressiva, cala-se e só depois desabafa com Adichie, chorando no banheiro. Adichie vê nesse silêncio o resultado de uma educação que ensina mulheres a priorizar ser queridas, mesmo quando isso as impede de se defender.

Desde cedo, meninas são ensinadas a controlar a raiva, evitar discordâncias e preocupar-se com a aprovação masculina, enquanto comportamentos semelhantes nos meninos são tolerados ou até elogiados. Adichie nota a quantidade de conselhos destinados a ensinar mulheres a agradar os homens e a frequência com que o casamento é usado como ameaça contra a autonomia feminina. A amiga de uma participante de sua oficina, por exemplo, alertou que o feminismo poderia destruir seu casamento, como se reivindicar igualdade fosse incompatível com amar alguém.

Chegamos à metade deste microbook

Até aqui, Adichie desfez as caricaturas em torno da palavra feminista, mostrou como a desigualdade se torna invisível quando repetida e apontou o custo imposto às mulheres que manifestam raiva ou deixam de ser benquistas. Esses mecanismos não são isolados: também moldam a maneira como meninos aprendem a ser homens e como meninas são orientadas a limitar suas ambições, seus desejos e sua presença. Na segunda metade, o foco se desloca para a educação familiar, a divisão das tarefas, o controle da feminilidade e o poder de transformar a cultura. O argumento final é que a igualdade exige nomear o problema e contar com a participação de todos.

Uma masculinidade estreita limita a todos

Adichie descreve a masculinidade ensinada aos meninos como uma jaula estreita: eles não devem sentir medo, mostrar fraqueza ou expor vulnerabilidade. Mesmo quando ambos têm pouco dinheiro, espera-se que o garoto pague a conta de um encontro para provar que é homem, uma regra que ela sugere substituir por outra mais simples: paga quem tem mais. Ao exigir dureza e transformar o dinheiro em prova de masculinidade, a sociedade também fragiliza o ego dos homens e restringe sua humanidade.

As meninas, por sua vez, aprendem a moderar a ambição para não ameaçar os homens: podem desejar sucesso, mas não demais, e às vezes são levadas a esconder que sustentam a família. Adichie conta que uma conhecida chegou a decidir vender a própria casa para não intimidar o homem com quem talvez se casasse, enquanto outra usava aliança em congressos para ser mais respeitada. Esses casos mostram como a expectativa do casamento pode influenciar decisões profissionais e pessoais mesmo em ambientes modernos.

O casamento pode ser fonte de felicidade, amor e apoio mútuo, mas Adichie questiona por que as meninas são ensinadas a desejá-lo como prioridade, enquanto os meninos não recebem a mesma formação. Na vida conjugal, a expressão “ter paz no casamento” costuma encobrir sacrifícios diferentes: homens podem deixar de sair todas as noites, enquanto mulheres frequentemente abandonam empregos, avanços na carreira ou sonhos. A linguagem de posse e a ideia de que o respeito deve fluir sobretudo da mulher dificultam uma parceria realmente recíproca.

Desaprender papéis impostos e viver com autenticidade

A distribuição das tarefas domésticas tampouco decorre de uma aptidão feminina natural: Adichie pergunta se as mulheres nasceriam com um gene para cozinhar e lembra que a maioria dos chefs mais famosos é formada por homens. Ela descreve uma família que manda a filha preparar macarrão instantâneo para o irmão, embora os dois sejam alunos brilhantes e ela não goste de cozinhar. A proposta da autora é educar as crianças a partir de seus talentos e interesses, ensinando a todos as tarefas necessárias à vida. Por isso, ela estranha que, mesmo em casais com formação e emprego equivalentes, a mulher assuma a maior parte das tarefas domésticas e ainda agradeça ao marido por trocar a fralda do bebê.

A mesma socialização controla a sexualidade feminina: meninas são advertidas a fechar as pernas, vigiar o decote e preservar a virgindade, enquanto a sexualidade dos meninos recebe outro tratamento. Além disso, Adichie critica a maneira como as meninas são ensinadas a ver outras mulheres como rivais pela atenção masculina. Depois que uma jovem foi estuprada por um grupo de homens na Nigéria, lembra Adichie, vários jovens, homens e mulheres, reagiram perguntando o que ela fazia num quarto com quatro homens, embora admitissem que o estupro era errado. Para a autora, esse julgamento desloca a culpa para a vítima e se apoia na ideia de que homens seriam criaturas sem autocontrole.

Antes de dar sua primeira aula de escrita para uma turma de pós-graduação, Adichie escolheu um terninho masculino e sem graça porque temia não ser levada a sério se parecesse feminina demais. Mais tarde, percebeu que não precisava pedir desculpas por gostar de batom, salto alto ou roupas que a fazem sentir bem, nem escolher a aparência em função do olhar masculino. Seu objetivo não é prescrever uma nova aparência, mas permitir que cada pessoa seja respeitada sem ter de esconder quem é.

Mudar a cultura exige nomear a desigualdade

Quando alguém afirma que a subordinação das mulheres faz parte da cultura, Adichie lembra que as culturas mudam. Ela recorda que, cem anos atrás, o nascimento de gêmeos na cultura igbo era considerado mau presságio e podia levar à morte das crianças, enquanto hoje essa prática é impensável. Como são as pessoas que fazem a cultura, tradições que excluem as mulheres não precisam ser preservadas.

Na própria família, Adichie é quem mais se interessa pela história ancestral e pelas tradições, mas não pode participar das reuniões em que os homens tomam decisões importantes. Por isso, insiste na palavra “feminismo” em vez de recorrer apenas à expressão genérica “direitos humanos”, que pode apagar a exclusão específica vivida pelas mulheres ao longo da história. Ao falar com homens negros, aprendeu que diferentes sistemas de opressão podem não reconhecer uns aos outros. Ela também distingue gênero e classe: um homem pobre pode não ter o privilégio da riqueza, mas ainda usufruir dos privilégios de ser homem.

Apelar a hierarquias observadas entre macacos não basta para justificar a desigualdade humana, lembra Adichie, porque não somos macacos. Os homens também precisam perceber e questionar as pequenas exclusões, como quando um garçom cumprimenta o acompanhante masculino e ignora a mulher. Para Adichie, feminista é qualquer mulher ou homem que reconhece que ainda existe um problema de gênero e quer resolvê-lo. Ela cita como exemplo o irmão Kene e recorda que sua bisavó também resistia às imposições, embora não conhecesse a palavra: fugiu de um casamento que não queria e escolheu o próprio marido.

Notas Finais

Em Sejamos todos feministas, Adichie mostra que a desigualdade não depende apenas de leis explícitas, mas também de hábitos, expectativas e pequenas presunções que todos aprendemos a reproduzir. A indignação diante dessas injustiças, para ela, não exclui a esperança de que os seres humanos possam mudar. Mudar exige criar meninas sem ensiná-las a se encolher, meninos sem aprisioná-los à dureza e relações em que autonomia, respeito e cuidado sejam compartilhados. O feminismo, nesse sentido, não é uma acusação contra todos os homens, mas um compromisso coletivo com uma vida mais livre e justa.

Dica do Minutobooks

Uma leitura complementar é O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, obra clássica que examina como a mulher foi historicamente construída como “o outro” e confinada a papéis sociais. Assim como Adichie, Beauvoir ajuda a distinguir diferenças biológicas das expectativas culturais que limitam as possibilidades femininas. O livro aprofunda, em uma perspectiva filosófica e histórica, muitas das perguntas que Sejamos todos feministas apresenta por meio de experiências cotidianas.

Fim da resenha

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